43 A Lenda da Sofinésia
Consta
que existe, em modo temporal tão diáfano que ninguém até agora logrou
estabelecer-lhe os limites, exceto que é concomitante à incerta emergência da
humanidade pensante e comunicante, desde a Pré-História às Idades a que
se convencionou chamar Antiga, Média, Moderna, Contemporânea e
Pós-moderna, sendo, no entanto, plausível elucubrar a hipótese de que as
congeminações da plêiade de pensadores que adiante se reportam teriam
subsistido para além das suas breves passagens pela existência efémera das geografias
e lapsos de tempo em que os seus mentores nasceram e morreram, logrando eles,
também, uma vida nova, em um espaço entre físico e virtual, não menos
misterioso mas imaginável, no qual levitam, em estado de espera graciosa, os
humanos que vão passando pelo mundo finito, mas dele merecem migrar, numa
espécie de sublimação, para um patamar de perenidade etérea, no contexto de uma
mundivisão platónica de vários mundos paralelos, movendo-se a diferentes
velocidades, porém sincronizadas, à imagem dos corpos celestes, ajustando e
conciliando as suas órbitas, espaço esse, enigmático e mutante, engendrado na
infimidade do pequeno Planeta número três do sistema solar, pela dança de
espessos cratões[1] que se foram aglutinando,
algures na confluência dos grandes blocos Gonduana e Laurásia, de que resultou
a Pangeia, a qual haveria, por seu turno, de se expandir de novo, num refluxo
telúrico de que nasceram os continentes e as ilhas, separados-unidos pela
fluidez dos oceanos, num ordenamento que se manteve ao longo de todas essas
Idades, descontadas pequenas alterações decorrentes de erupções vulcânicas e
abalos tectónicos, mas deixando, contudo, submerso mas vivo, e mesmo
intensamente ativo, contido numa espécie de reserva nuclear, comprimida e
oculta do comum dos mortais, um arquipélago aglutinando núcleos resilientes desses
cratões, quais neurónios ligados por veios de conexão, à laia de axónios e sinapses da espessura de cabos submarinos
que transportam e armazenam não só uma espécie de memória coletiva do passado
de toda a vida histórica da humanidade, que foi prosperando ao longo dos tempos
num devir controverso pontilhado com episódios de aparente autodestruição,
paradoxalmente criativa, alternando caos com reformulações, evidenciando uma
apetência estaminal para se reinventar em sucessivas e ininterruptas
metamorfoses, como ainda, num eflúvio de inteligência sintética suscetível de
aumentar e aperfeiçoar exponencialmente o conhecimento e, para cúmulo, de o
otimizar e reestruturar, suscitando fluxos combinados de deduções e induções,
gerando sínteses fantásticas, incrivelmente inovadoras, a que estes romeiros do
pensamento ascendem, ao migrar para esse novo mundo, a um grau elevado de aptidões,
em que se inclui a premonição do futuro, num meio ambiente novo, neptúneo[2], asséptico e perene.
Uma
perspetiva da Sofinésia
Bem-vindos
ao poliéden da Sofinésia, um vasto conjunto de plataformas imersas,
santuário de arquétipos de todos os conceitos e sistemas filosóficos de todas
as civilizações, fundeado algures onde dizem ter-se submergido a mítica
Atlântida, em parte tectónicas, de relevo acidentado, povoadas por uma fauna
demersal de profundidade, e em parte coralinas, povoadas de cardumes das mais
variadas espécies piscícolas, vagueando por corais polícromos e ondulantes que abrigam,
outrossim, jazigos de deuses míticos, e agora de portas virtuais franqueadas à
fina flor dos humanos em sobrevida, que vão, vencendo a morte, ingressando na
dimensão imorredoura da criatividade transcendente, regenerativa, inclusiva,
transdimensional…
Em
cada uma das Plataformas da Sofinésia, nas quais se desvanecem as contingências
do tempo e do espaço, da finitude ou das fronteiras, das necessidades
biológicas, transacionais ou de mobilidade, mas, em contrapartida, em que se
apura uma gnosiologia requintada e imorredoura, na qual as diferenças que outrora
separavam passam a ativos de atração mútua e se combinam em matizes e formas
caleidoscópicas de harmonia deslumbrante, sobrevivem, numa colegialidade
idílica, pacífica, consensual e pós-material, estirpes de pensadores e
artistas, inteiramente dedicados ao apuro das mundivisões de que fizeram
história no seu tempo finito e espacial,
das quais prosseguem o cultivo, reformulando-as e refinando-as, à espera
da Idade derradeira, a que chegará com o reagrupamento definitivo da
Pangeia, algures no Cosmo, no indefinido Éden do Conhecimento, da Paz, da Concórdia e do Amor,
imenso e luminoso, em que ocorrerá, emergindo em epifania resplandecente, a
Grande Desambiguação entre os diversos olhares sobre o Universo, entretanto
aprimorados em cada uma das plataformas até então submersas, e na qual se
manifestará, no arranque do Tempo Novo, a organização do grande evento do
reagrupamento universal de uma humanidade enfim restaurada e reequilibrada no
mundo redimido do Bem, da Justiça e da Beleza.
Plataforma
coralina
Os
primeiros inquilinos começaram a chegar, oriundos da História do Pensamento, da
Ética e das Artes, às águas preclaras da Sofinésia, vindos da África, do Médio
Oriente e da Europa, desde há quatrocentos milénios em diante, e foram-se
acomodando na Plataforma Sapiens-Neandertal, a mais exígua e
profunda das que compõem o Limbo da Esperança[3].
À época, mesmo tendo ascendido à perpetuidade, os recém-chegados nada sabiam
dos que os haviam precedido, na Gonduana ou em outras geografias, quanto a
conquistas mais ou menos bem sucedidas na busca, na sistematização e na comunicação do conhecimento, dado que o
modo de o testemunharem, depois de o terem captado, de forma ainda pouco
estruturada, dos seus semelhantes ou da Natureza, se limitava a pouco mais do
que pinturas rupestres e balbuciamentos muito rudimentares, limitações que eram
majoradas em modo passivo pela escassez dos que por esse tempo sobreviviam à
predação das feras e ao rigor das intempéries, a tempo e com meios de
registarem o seu testemunho, antes que a morte os colhesse. Só bem mais tarde
tiveram notícia de Lucy, que vivera em Afar, na Etiópia, mais de três
milhões de anos antes deles; ou de Pé Pequeno, que consumira os seus
dias um pouco antes deles no tempo, mas longe, no extremo sul do Continente-pai
da humanidade, nas proximidades do Cabo das Tormentas; ou do seu vizinho
geográfico, mas ainda mais longínquo no tempo, Sahenlathropus Tchadensis,
ancestral de há quatro milhões de anos, cuja existência, porém, só viria a ser-lhes
revelada com a chegada dos arqueólogos do século XX, Donald Johansen, Tom Gray,
Ron Clarke ou Toumai à vizinha Plataforma Lógos da Sofinésia.
Meditação
Já
a Plataforma Nirvana começou a acolher, mais recentemente, desde
há cinco milénios, vindos do Indostão, pensadores bem mais sofisticados que os
seus pares da Sapiens, pois já explicavam o ciclo de sucessão da vida,
que ocorreria através da reincarnação, como processo de aperfeiçoamento do
espírito, imorredouro, habitando penitentemente sucessivas criaturas, da mesma
ou de outra espécie, em alteridade física e geográfica (dukkha),
consoante a progressão ou regressão na sublimação espiritual conseguida, até
atingirem a libertação da matéria e do sofrimento (samsara), pela
prática da meditação, do yoga, de peregrinações, ou pela
interiorização e exercitação de mantras e karmas estipulados em
Escrituras a que chamaram Vedas. Uma filosofia que se perpetuou no tempo
atá aos nossos dias, e no espaço, mormente por toda a Ásia, e dá pelos nomes de
hinduísmo e budismo.
Foi
a partir do século VII antes de Cristo que as magníficas áleas de corais que
conduziam à entrada dos portões da Sofinésia vibraram de todas as suas formas e
cores, dando as boas-vindas à chegada de mentores de correntes filosóficas
avançadas à Plataforma Lógos, a começar por Zaratustra, que
vivera na Pérsia e aí condensara uma mundivisão muito elaborada, sendo
mesmo por alguns considerado o primeiro
filósofo da humanidade, com legado deixado escrito em linguagem sânscrita,
afirmando o livre-arbítrio dos humanos, professando a primazia de valores
morais, presumindo a emergência de outra vida após a morte biológica, deduzindo
da observação do comportamento dos vivos a inevitabilidade da existência de uma
justiça transcendente que castigue o mal e premeie o bem, de modo a repor a equidade que toda a
Natureza reclama, e inferindo do
fascinante sincronismo em que a vida se move e reproduz, o pressuposto de uma Força
Criadora de todas as coisas, com estofo para conferir sentido e perenidade à harmonia das suas maravilhas.
Confúcio,
que viveu na China de 551 a 479 a.C., chegou por esses tempos com o seu séquito
à Plataforma Ren-Li-Xiao-Zhong-Shu-Wen, assim denominada para
traduzir os grandes princípios da filosofia de vida confucionista: humanidade,
bondade e benevolência (ren), prática de rituais de etiqueta e respeito
(li), piedade filial, consideração pelos idosos e ancestrais (xiao),
lealdade (zhong), reciprocidade (shee), cultura, educação, busca
de equilíbrio intelectual e moral (wen). Promover a justiça e a ordem em
vista do bem comum, era a conduta que cultivava esta doutrina filosófica, bem
expressa na resposta que o Mestre terá dado ao discípulo Tzu-Kung, quando lhe
perguntava que máxima devia ser seguida ao longo da vida e lhe respondeu enunciando
um preceito que seria retomado pelos melhores sistemas de conduta a partir daí:
--“Nunca faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”…
Seguiram-se
os filósofos gregos e romanos, primeiro Tales de Mileto, da Escola Jónia, tido
como o primeiro cientista conhecido, ao descartar, porque desnecessárias,
explicações mitológicas para os fenómenos naturais, e pelos raciocínios
matemáticos, como o que deixou expresso no teorema do seu nome, tentando
perceber e explicar a mensurabilidade do Universo, seguido por Anaxímenes,
também de Mileto.
Depois,
no decorrer dos séculos VI e V a.C., veio um punhado de filósofos da Escola
Pitagórica, com o próprio Pitágoras, de Samos, a sublinhar a harmonia do
Universo, à imagem do teorema que também nos legou, na linha do cálculo
matemático de Tales, pelo qual mede as proporções de um triângulo, por sua vez
simbolizando a admirável proporcionalidade de toda a criação, e cuja regra de
vida virtuosa consistia em seguir as leis da Natureza, imanentes a todo o Cosmos[4] - o Lógos[5]
-, optando pelo Amor e repudiando o Ódio, para assim fugir à
morte e obter a natural inserção na Vida Perene, ideias que foram
aprofundadas nos séculos subsequentes, por outros filósofos da mesma Escola,
como Heráclito de Éfeso, Anaxágoras de Clazomena ou o siciliano Empédocles, de
Agrigento, além de vários outros, entre os quais convém destacar Demócrito de
Abdera, tido como o precursor do materialismo, ao lançar, com o seu
conterrâneo Leucipo, o atomismo, considerando na altura, numa visão
cósmica já avançada, que o átomo era a partícula indivisível do universo, e
concluindo que este é constituído de vários mundos, além daquele que era então conhecido…
No
início do século IV a.C. chegaria, de Atenas, Sócrates, cujo legado deixara um
rasto de incerteza inquietante ao afirmar, no termo de setenta anos de uma vida
predominantemente académica, “só sei que nada sei”, e tendo-se recusado,
por isso, a redigir obra escrita, pois considerava que isso seria incongruente
com o carácter transitório, e logo precário, com que avaliava o seu saber. Foi
graças ao seu conterrâneo e discípulo Platão, ao dramaturgo Aristófanes e ao
historiador Xenofonte, todos expoentes da elite culta ateniense, que nos chegaram, ainda assim, as suas teses
filosóficas, no essencial em linha com as da Escola Pitagórica, assentes na
centralidade da Razão, e que aprofundavam, em acréscimo, facetas inovadoras,
como a da ética, à qual atribuiu centralidade na vivência humana; a da ironia,
como forma de relativizar atavismos, abrindo caminho a um pensamento desinibido
e esclarecido; ou a do método, traduzido num processo de questionamento
penetrante e exaustivo, que ficou conhecido como maiêutica[6],
destinado a desmontar preconceitos, em favor de uma busca corajosa e imparcial
da verdade das coisas e dos acontecimentos.
Platão,
também ateniense e discípulo de Sócrates, que desenvolveu o seu pensamento
filosófico no século IV a.C., deu novos passos na inteligibilidade do universo,
numa vertente analítica, manifestando a opinião de que nós os humanos não
conseguimos discernir os seres perfeitos, porque eles existem num mundo
superior que nos é oculto, mas, ao contrário dos nossos sentidos, a nossa mente
consegue entendê-los; ao passo que, ao invés, captamos com os nossos sentidos
as “cópias” terrenas desses mesmos seres, mas temos dificuldade em entendê-las
e explicá-las, por não passarem de uma espécie de sombras imperfeitas dos seus
originais… Temos, pois, segundo o entendimento de Platão e dos filósofos da sua
Escola, três mundos a desafiar o nosso entendimento: o que contém as formas
reais, belas e bondosas do mundo, geradas pelo Arkê[7], e o seu reflexo,
com as limitações próprias de uma cópia a espraiar-se nos horizontes que os
nossos sentidos captam, no mundo menor em que nos movemos, sem contudo a
conseguirmos explicar, cruzando-se esses dois mundos, numa dualidade
perturbadora, com um terceiro, aquele em que a nossa mente ensaia conciliar os
dois, esforçando-se por emparelhar a cópia com o original, inteligindo e
assimilando, por um lado, as formas importadas do hiperurânio[8],
e tentando, por outro, plasmá-las na matéria, ela sim observável e palpável pelos
nossos sentidos, no modo e na proporção convenientes. Ficavam assim lançados os
conceitos da subjetividade, da objetividade e da transcendência,
que alimentaram e continuam a alimentar o debate filosófico e científico, ético
e estético das sucessivas gerações de pensantes, e a incentivar a acuidade
interrogativa da Filosofia, a resiliência experimental da Ciência, a sede de
justiça da Ética, a criatividade da Investigação, o anelo pela beleza das
Artes, num ciclo inconsútil de movimento perpétuo no palco existencial, estreito
na base e alargando-se à superfície, com epicentro na Sofinésia, como se o
hiperurânio tivesse mergulhado no oceano para se proteger de meteoritos ou da
proliferação de satélites na exosfera deste pequeno rincão do Universo...
Escola
peripatética
Aristóteles,
jónio de Estagira, mas aluno de Platão em Atenas, o terceiro e último dos
grandes clássicos helénicos, veio projetar a abóbada deste ciclo
pitagórico dos pensadores da Grécia Clássica, com a pedra-chave da sua tese hilemórfica[9], que considera, ao contrário
de Platão, todos os seres como sínolos[10] de matéria e forma
fundidos, explicando, num exercício algo complexo de semântica, que a matéria
entra na equação do ser como potência, enquanto que a forma (a não confundir
com formato, ou molde) é a essência, como que a alma que confere ação à potência
latente na matéria, sem por isso discordar dos filósofos da sua Escola quanto à
natureza dessa forma-força-ação, que não é gerada pela matéria, pois é uma
centelha do arkê, a fonte misteriosa da vida. Por outro lado, a sua
arquitetura do raciocínio em forma de silogismo[11] introduziu rigor no
discurso, fornecendo à Lógica uma das suas ferramentas nucleares para o bom
desempenho de múnus como o da jurisprudência ou o da retórica, e à ciência um
sólido travejamento à sua veia jugular, a experimentação… Dado que Aristóteles não
era cidadão ateniense, e por isso não podia adquirir propriedades nessa
Cidade-Estado, o ensino que ministrava era exercido no Liceu, ou simplesmente
passeando-se com os alunos, razão pela qual a sua Escola ficou conhecida por peripatética.
Na
esteira da valorização da ética, professada pelos clássicos gregos desde
Sócrates, filósofos como Zenão de Cítio e Crisipo de Solis levaram o culto das
virtudes ao auge na cadeia de fatores de valorização pessoal, numa Escola de
pensamento que se manifestou em Atenas no decorrer do século III a.C. e ficou
conhecida por estoicismo, considerando que a felicidade advém da prática
das quatro virtudes cardeais: a sabedoria, ou prudência; a coragem,
ou fortaleza; a temperança, ou moderação; e a justiça, ou equidade;
e não tanto da saúde corporal, da riqueza material ou do prazer físico; uma via
de certo modo oposta à dos epicuristas (designação derivada do nome do
seu mentor, Epicuro de Samos – século IV a.C.), para os quais a mesma
felicidade era atingida pela prática moderada dos prazeres simples da vida, da
qual adviria a conquista da tranquilidade e do destemor, proporcionando o gozo
de uma saúde equilibrada que afasta o sofrimento físico e moral.
Antes
dos epicuristas e dos estoicos, na transição do século V para o século IV a.C.,
um trio de cireneus, Aristipo, Teodoro e Hegesias, cultores, como os
epicuristas, de um certo materialismo atomista e empirista,
professaram o hedonismo[12],
uma mundivisão particularmente atraente, na medida em que aposta no prazer como
valor maior, mas obtido mais pelo desejo, fluido e infinito, que pelo usufruto,
efémero e fugaz, sublinhando até a ligação intrínseca do prazer à dor, mas
corporizando um elo deveras interessante no balancear dialético da procura de
caminhos do conhecimento, como viria a verificar-se com a recorrência do tema
pelos séculos fora, com pensadores hedonistas de todas as eras a elucubrarem
sobre as facetas psicológica-motivacional, ética-normativa,
axiológica-avaliativa, ou ainda a estética do prazer, ou, por
outra, o prazer da estética, num esforço de responder ao que ficou conhecido
como Dilema de Eutífron, um pensador coevo de Sócrates, trocando as
voltas ao conceito, aplicado à beleza: -algo é belo porque gostamos, ou
gostamos porque é belo? -Um malabarismo que pode ser cotejado com a
asserção de Agostinho de Hipona, bem mais tarde, ao denunciar o comportamento
dos que pensam como vivem, em lugar de viverem como pensam…
Já
os cínicos, que tiveram o primeiro mentor em Antístenes, de Atenas, e
precederam, na transição do século V para o sáculo IV a.C., os estoicos,
exacerbavam o entendimento da prática das virtudes e consideravam de capital
importância para o indivíduo conquistar total independência, plena liberdade e
autossuficiência, o que implicava desligar-se da riqueza, da fama e dos prazeres, assim como de
tudo o que seja exterior, para não arriscar sofrer com a dor como reverso da
medalha. Um dos expoentes do cinismo foi Diógenes de Sinope, de quem
ficaram para a história episódios pitorescos, demonstrativos do desapego aos
bens terrenos que professava, com exceção do usufruto da Natureza, que
cultivava com esmero, como quando terá respondido, sem cerimónias, a Alexandre,
o Grande, que o visitava, à boca do meio-barril em que habitava, e lhe
perguntava se necessitava de alguma coisa: --“sai-me da frente, não me tapes o
sol”… Ou quando respondeu a quem o inquiria sobre porque razão andava de
candeia acesa em riste à luz do dia: --“ando à procura de um Homem”. Diógenes
era conhecido em Atenas como “o Cão” (kynos), ao que parece por morar
numa espécie de casota como este fiel amigo dos humanos, ou, segundo outras
fontes, por ministrar o seu ensino numa zona em que abundavam cães, advindo
daí, ao que parece, o nome por que ficou conhecida a corrente filosófica que
professava.
Como
normalmente acontece, ao ritmo do encadeamento dialético em que evoluem o
pensamento, o planeamento e a ação, também a sucessão de modos de ver, de
interpretar e de imaginar o mundo e o papel do ser humano pelo investimento que
faz no desenrolar da sua existência, passou por momentos de saturação e de
dúvida, numa daquelas hesitações que regularmente ameaçam paralisar a corrente
da evolução humana, em que o processo de síntese entre pontos de vista
aparentemente opostos passa pela prova do caos. Foi o que se passou com
a onda de ceticismo que medrou na Escola de pensamento filosófico
encabeçada por Pirro de Élis, na transição do século IV para o III a.C., que, à
semelhança de Sócrates, optou por nada deixar escrito, valendo-nos mais uma vez
os seus seguidores para acedermos às suas teses filosóficas, que foram seguidas
por diversos pensadores, como Tímon de Fliunte, seu condiscípulo, e mais tarde,
a caminho do século II a.C., por Arcésilas, Carnéades e Clitómaco, da Nova
Academia; Fílon de Larissa, Enesidemo de Cnossos; e, já na Nova Era, do século
II para o III, pelos médicos Menodoto de Nicomédia, Teodás de Laodiceia e
Sexto, o Empírico, de Tarso. Tal como os
estoicos, os epicuristas, os hedonistas ou os cínicos, e, convenhamos, tal como
qualquer humano, filósofo ou não, ou mesmo como qualquer ser vivo em geral, a
procura da felicidade, seja qual for a sua natureza e grau, num equilíbrio que
dê sentido à existência e a prolongue, se possível para além da morte, individual
e coletivamente, foi e continua sendo o móbil último de toda a pulsão de vida…
É
ainda de relevar o ecleticismo[13],
inaugurado na antiguidade helénica por Antíoco de Ascalão, no século III a.C.,
e professado por diversos pensadores de outras correntes, sobretudo a estoica,
como Panécio de Rodes no séc. II a.C. e Posidónio de Apameia no séc. I a.C.,
que vem sublinhar outra constatação insofismável, a saber, que as diversas teorias
filosóficas estudadas nas várias escolas nem contêm individualmente toda a
verdade, nem tão pouco se excluem mutuamente, pelo que a mesma deve ser
procurada harmonizando em puzzle bem estudado e congruente as conquistas
consumadas por cada uma das correntes em presença, um posicionamento que chega
assim a um novo conceito, o de sincretismo[14],
que teria o condão de adicionar, otimizando-as, as diversas mundivisões em
confronto, logrando assim atingir o objetivo maior do processo dialético: o
equilíbrio virtuoso da síntese….
Na
charneira entre a vaga de pensadores da era antiga, basicamente os gregos, e o
advento da sua reformulação cristã, emergiu um filósofo judeu (20 a.C. – 43 d.C.),
Fílon de Alexandria, que, à semelhança do Farol ícone da sua Cidade, projetou,
sem disso se aperceber, um clarão deveras esclarecedor sobre como a trama do
pensamento filosófico que se tecera ao longo do último milénio moldaria, tal
como à sua, a filosofia cristã ensinada por Jesus, seu contemporâneo nascido e
vivido à distância de setenta meras léguas lineares... Conglomerando a corrente
platónica, a cética e a eclético-sincrética, empenhado em interpretar a
Literatura Sagrada do Antigo Testamento[15]
à luz da reflexão filosófica helénica, traçou um paralelo entre o hiperurânio,
de Platão, com o Deus transcendente e perfeito dos judeus, pondo ainda assim de
parte a tese panteísta, ao fazer notar que por ser imanente, imóvel e incorruptível, Yavé[16]
delega toda a ação em um demiurgo, o Lógos, a quem chama primogénito de
Deus, distinto do mundo material, traço de união entre Deus e a sua criação, expiador
de pecados do seu povo (judeu), criador de todas as coisas, culminando na criação do homem, que dotou, em
tricotomia, de mente (nous), alma (psikê) e corpo (soma),
conforme uma espécie de manual de arquétipos do mundo superior, que reproduz no
mundo inferior exercendo os seus poderes, que descreve como anjos…
Era
chegado o limiar da era inaugurada pelo galileu Jesus de Nazaré, o Messias
improvável do povo de Israel, que vincaria radicalmente o ângulo mais luminoso
da História da sapiência, ao demonstrar, com a força de uma razão eivada de
afeição à Natureza, à Verdade, à Justiça e à Beleza, conceitos tão
estruturalmente presentes no âmago da investigação do vasto séquito de
pensadores do mundo helénico-romano que decorria, sem exclusões, mas em
contraciclo com a razão da força, até então o êmbolo de todos os avanços e
recuos resultantes das convulsões conhecidas, tantas vezes enviesando teorias
magnânimas com práticas ínvias que conduziam ao domínio do homem pelo homem,
tão comuns no tubo de ensaio em que se vinha movendo a humanidade. Homem
divino, cuja filosofia implicava considerar também divinos todos os seus
semelhantes, de uma brandura tão admirável e cativante quanto firme e
convincente, emergindo de uma “Escola” ignota, sem teorias novas, mas ao
arrepio da práxis que fazia caminho em Jerusalém, pretendendo erguer uma
nação, aberta a toda a gente mas sem exército nem armas que a impusessem, a não
ser a da Palavra apontada à inteligência racional e emocional de quem o ouvia,
a sua missão era maior que o mundo: congregar e chamar à plenitude de
realização, individual e comunitária, toda a criação e requalificar a tabela de
valores em curso, quer contornando as potestades reinantes no então Império
Romano, que se estendiam aos estados suseranos locais, como era o da Judeia,
esclarecendo que não pretendia combater as leis vigentes, na altura plasmadas
em cânones que filtravam a admirável progressão do pensamento das comunidades
de pensadores do Médio Oriente, finalmente registadas e legadas em suportes
transacionais duradouros, mas sim dar-lhes cumprimento, quer depurando-as do
formalismo hipócrita em que caíra a grelha de conquistas filosóficas e
religiosas dos mentores do seu próprio país, Israel, quer simplificando-as ao
extremo em um conceito nuclear: a felicidade de cada indivíduo está em partilhar-se com os
outros indivíduos, amando-os como se ama a si próprio e não lhes fazendo a eles
o que não quer que eles lhe façam; o mesmo valendo para a definição de
felicidade coletiva, indissociável da harmonia universal, sem qualquer
discriminação… Tal como Sócrates e outros filósofos que o precederam, Jesus
nada deixou escrito, a não ser algumas palavras e desenhos rabiscados no pó da
terra com gravetos, quando comunicava com quem o seguia, no estilo peripatético
característico da época quando se enveredava por ideias inovadoras, fora dos
templos e das escolas, e seriam algumas das testemunhas que o seguiram que
deixariam gravadas as suas memórias e a sua doutrina, na língua grega comum (koinê),
uma das usadas por Jesus, a par do aramaico e do hebraico. Mas seria estulto
não dar importância à clarificação que a doutrina cristã (a verdadeira, ainda
sem camadas de disfarces com que veio a ser maquilhada a sua limpidez unívoca e
cristalina) trouxe ao emaranhado de edificações filosóficas tecidas até então
em busca de respostas às dúvidas de humanos no encalço da Verdade…
Também
Lúcio Aneu Séneca, igualmente contemporâneo de Jesus Cristo, fez de algum modo
a ponte entre o helenismo filosófico e a nova era que raiava, percorrendo como
ele, em pista paralela, um caminho de pensamento e de doutrinação muito
próximo, embora a partir de uma base estoica e epicurista… Terá sido o primeiro
grande pensador e erudito nascido na Bética, Península Ibérica, mais
precisamente em Córdoba, de um casal de colonizadores romanos, de onde partiu
menino para Roma para aprender oratória e filosofia. Não foi tanto um teórico
de alguma ou de várias das teses filosóficas vigentes, que bem conhecia por as
ter estudado em profundidade em Alexandria e depois no exílio da Córsega[17],
mas um pragmático, por ter da vida uma visão operacional, de homem abastado e
poderoso, tendo que lidar com resistências e adversidades, no exercício dos
cargos de Senador, depois de Pretor e ainda de Preceptor de Nero, o filho de
Agripina, a quem o poder, desgraçadamente, ao ter-se tornado Imperador aos 17
anos, toldou a mente e tornou desequilibrado e desconfiado ao ponto de cometer
crimes horrendos, como o incêndio que devastou boa parte de Roma, incriminando
os cristãos, que perseguiu sem freio, ou o assassinato de quem lhe parecia que
se lhe opunha, incluindo a sua própria mãe, Agripina, até condenar o próprio
Séneca ao suicídio, quando o Preceptor, que o apoiara nos primeiros anos de
governo, passara a adverti-lo da iniquidade dos seus crimes, sentença que
Séneca auto-executou, à semelhança do que ocorrera com Sócrates, à boa maneira
estoica, desta feita cortando os pulsos, depois de, também ele, beber uma
infusão de cicuta… Deixou vasta obra escrita, agora em latim, como poeta,
humorista, filósofo e dramaturgo, da qual rescende um pendor marcadamente
estoico, de desapego dos bens materiais, que ainda assim consegue conciliar com
a ideia liberal de gerar riqueza e dela usufruir, mas colocando-lhe baias, a
saber, ter o que é necessário mas limitar-se ao suficiente, e manter prontidão
para se separar de todos os bens, sem temor da morte, deixando mesmo caminho
aberto à eutanásia, o que considera um posicionamento de sabedoria,
acrescentando que o sábio, resiliente e desapegado, nunca será infeliz, devendo
para isso concentrar-se no que pode controlar, sem se preocupar com o que não
domina… Séneca veio juntar-se ao eclético Cícero, que o precedera, no século
anterior, na Plataforma Latina, à qual se reuniria, no século
seguinte, o também estoico Marco Aurélio, Imperador…
Coincidiu
no tempo com as digressões filosófico-teológicas de Jesus pelos caminhos puídos
da Galileia, da Samaria, da Judeia e da Pereia - ironia da História! - chegar à
Sofinésia, mais precisamente à Plataforma Totem, o primeiro
balbucio das civilizações do Novo Mundo, tão novo que em todo o Crescente
Fértil, na altura o orgulhoso santuário da que se cria ser toda a sapiência,
nada se sabia, porém, do que haveria para ocidente do Império Romano, para lá
das colunas de Hércules, a não ser apenas o temível desconhecido, que não seria
senão um abismo, oxalá que cercado de muralhas poderosas e tranquilizantes, que
impedissem o mundo então percebido e mapeado de deslizar para sinistros
infernos sem fundo… Graças ao surgimento da escrita arawac na região de
Izapa, no contraponto pacífico da península do Yucatan, onde o tempo começou
por essa altura a ser registado em calendários que passaram a deixar à
posteridade laivos de memória não só dos maias, como de culturas
vizinhas algo avançadas, tais como, a norte, a olmeca, no México,
predecessora da azteca, e a sul, a chorrera no Equador, ou a chavin
na região andina, onde emergiria, das suas raízes, mas bem mais tarde, um longo
milénio depois, a civilização inca.
Ritual Inca
Berço
da Humanidade, o Continente Africano tinha de ter, por natureza, garantida uma
plataforma reservada na Sofinésia. Tendo mantido, a sul do Saará, na região dos
Camarões e da Nigéria, estendendo-se para os reinos do Congo e do Zimbabwe, uma
forte tradição oral, os seus filósofos mais antigos não se manifestaram
individualmente nem elaboraram uma linguagem de transmissão estruturada,
optando, em alternativa, por uma espécie de cordão umbilical sucessório para
comunicar e socializar as suas máximas, pelo que a chegada dos pensadores da
ancestralidade africana à Sofinésia se processou solidariamente por tribos
inteiras, desde logo as que corporizaram a filosofia buntu, e se
estabeleceram na Plataforma Ubuntu[18].
Com efeito, o indivíduo, segundo o pensamento buntu, só ganha personalidade
inserido na comunidade, que por sua vez se liga hereditariamente aos seus
ancestrais e à Natureza, como um todo indivisível e comunicante, vivificado
pela força vital, o ntu, que move os Um (humanos), as Ki
(coisas), os Hu (espaço e tempo) e os Ku (circunstâncias que afetam a
existência), num mundo que se ambiciona ser solidário e harmonioso, assim
constituído por Muntu, Kintu, Hantu e Kuntu[19].
A origem do mundo, do homem e da comunidade é explicada, de geração em
geração, através de provérbios, mitos e narrativas, cuja conservação e
transmissão está a cargo dos anciãos, que se vão revezando de geração em
geração, e apela ainda, em modo oral, ao advento de uma sistematização
intelectual comutável em linguagem fungível, para além de representações… Uma
filosofia que supostamente deveria promover e garantir o bem comum, a resolução
pacífica de conflitos, em um modelo de convivência ético, sustentável e
genuinamente humanista. Assim o pensamento de elites ancestrais tivesse o
condão de comandar a ação dos indivíduos e das comunidades herdeiras, sem
desvios e apropriações…
Baobá, a ágora africana
Separada
da Ubuntu por um pequeno istmo situa-se a minúscula Plataforma Taiga,
que acolhe as gentes setentrionais, Inuítes, Yupiks, Sami, habitantes
desde o Alaska às canadianas Nunavut e Nunavik, à Groenlândia, à Escandinávia e
à Sibéria, povos cultores de convicções existenciais animistas, como as
africanas, professando um respeito profundo por toda a Natureza, que consideram
habitada por espíritos que interagem com as suas vidas.
Em
face de um conjunto tão notável de pensadores que douraram o período clássico
da filosofia com mundivisões que pareciam esgotar os horizontes da pesquisa
filosófica, desde o alvor da escrita até ao dealbar da nova era, pareceria que
as grandes questões existenciais sobra a Vida, a Natureza e o Universo estavam
enunciadas e, por outro lado, os alicerces das hipóteses de resposta às mesmas
estavam, umas vezes patentes e outras vezes latentes, contidas nas numerosas
correntes de pensamento elucubradas pelos filósofos da antiguidade, sem
prejuízo de se ir sempre mais além, quer na abrangência quer em profundidade,
parecendo claro que o grande estaleiro da pesquisa passava o testemunho para as
mãos da ciência, da tecnologia e das artes, sem que isso significasse que o
questionamento filosófico houvesse de sair de cena, ou sequer perdesse vigor.
Porquanto, um dos grandes ensinamentos de toda a pesquisa filosófica já
efetuada era o de que o percurso da vida, mormente a humana, contém no seu
cerne a missão conatural de ir sempre mais além e mais fundo na compreensão dos
eventos que a movem, a caminho de uma plenitude que parece sempre atirada para
o futuro, num horizonte a atingir, que se confunde com a satisfação da sempre
renovada centelha de apetite por uma felicidade com definição em devir,
sabendo-se já que o próprio universo, tão vasto que ainda não lográmos sequer
adivinhar-lhe os contornos, continua a expandir-se e parece até infinito. Neste
cenário, e salvo melhor entendimento, o desenvolvimento do conhecimento vai-se
desbobinando em ondas de perguntas e respostas, cuja cadeia de montagem passa
pela filosofia, segue com a ciência, embeleza-se com a arte, firma-se com a
ética, sendo certo que todos estes patamares devolvem questões uns aos outros e
deles esperam respostas, num processo sem fim à vista…
E
foi isso mesmo o que ocorreu. Vale, por isso, a pena percorrer, mesmo que
sucintamente, os dois milénios desde então palmilhados de análise, averiguação
e escrutínio do conhecimento filosófico, em diálogo com a ciência, com a arte,
com a religião, com a ética, com a política, num corrupio entre a observação e
a introspeção, entre a razão e a emoção, entre o sagrado e o profano, entre o
belo e o feio, entre a harmonia e o caos, entre o direito e o dever, entre o
que se acha bem e o que se acha mal…
Assim,
entre o século II e o século V assistiu-se à implantação do pensamento cristão,
incrustado em matriz neo-platonista, com Clemente de Alexandria, depois
com Plotino de Licópolis, egípcio, e com Agostinho de Hipona[20],
um numídio convertido à doutrina cristã, acabada de ser oficializada pelo
Imperador Constantino, que criou a ciência teológica, no âmbito da qual
entendeu que Deus é uno e trino, acrescentando à dualidade divina do judeo-helenista
Fílon de Alexandria, interpretando Platão, uma terceira pessoa, a do Paráclito,
testemunhado pelos discípulos de Jesus, que o enviara sob a forma de fogo,
quando estavam reunidos e escondidos com medo, depois de o Mestre ter sido
condenado e morto, às ordens dos poderes locais e coloniais, com a conivência
ativa dos sacerdotes do Templo, em Jerusalém, e, como é recorrente em cenários
populistas, com o aplauso da turba popular, para os consolar e lhes assegurar
que estava vivo. Agostinho aprofundou a psicanálise, destrinçando no espírito
humano os conceitos triangulares de mente, amor e conhecimento e,
paralelamente, os de memória, inteligência e vontade.
A
História conhecida não sinaliza a ocorrência de filósofos com grande
notoriedade depois de Agostinho até ao final do primeiro milénio d.C. A
corrente de pensamento que se seguiu foi a que se designa de escolástica,
que dominou toda a Idade Média, do século IX ao século XVI. A preocupação dos
escolásticos, que remonta a Agostinho e é retomada por Tomás de Aquino e
numerosos teorizadores medievais, foi a de conciliar a fé cristã, com os seus
conceitos exógenos de Providência, de Revelação Divina e de Criação, com o
pensamento racional grego, aristotélico-platónico, servindo-se para isso da
dialética como método para chegar ao conhecimento por inferência e para detetar
contradições, no pensamento e na forma de o expressar, para poder corrigi-las.
Estava a chegar a era das Universidades, e os Escolásticos encontraram duas
fileiras de sistematização do grande Ensino Medieval: o Trivium
(gramática, retórica e lógica), e o Quadrivium (aritmética, geometria,
astronomia e música), um conjunto vasto de matérias que trouxe um novo fulgor
ao fluxo de investigação reflexiva e uma longevidade nunca antes vista de uma
corrente filosófica estabilizada. Razão pela qual, todas estas sumidades, e
muitas outras, ocupam a Plataforma Universitas na Sofinésia.
Aula, numa Universidade Medieval
É
também por esta altura, na transição de milénio, que chegam à Plataforma madrassa
Avicena de Khomeitan[21],
médico árabe islâmico xiita, cuja teoria filosófica não se diferencia
substancialmente da escolástica, dominante na época, tendo mesmo vindo e
influenciar Tomás de Aquino. Chega também à Sofinésia um outro árabe,
igualmente islâmico, nascido em Córdoba, tal como Séneca, mas no século XII,
que, ainda no contexto islâmico do Al-Andaluz, acompanha também a doutrina
escolástica-aristotélica, e choca mesmo com a doutrina corânica ao afirmar que
os conteúdos do Alcorão que não sejam condizentes com a razão e com a Filosofia
devem ser interpretados alegoricamente…
A
partir do século XVI, as correntes de pensamento filosófico atingem
progressivamente mais elites pensantes, que se desdobram em ramificações
sistematicamente marcadas por personalidades a cunharem tendências que ficaram
ligadas aos seus nomes: no renascentismo, Erasmus de Roterdão, que
preconiza um homem novo, nascido de uma dialética entre a Natureza e a Graça; o
londrino Thomas More, que escreveu a famosa Utopia[22],
em que avança com ideias revolucionárias para a época, pacifistas e
igualitárias, que lhe valeram a condenação à morte por Henrique VIII,
confrontado por Tomás com a imoralidade do divórcio do rei; Lutero, de
Eisleben, Saxónia, que despoletou uma Reforma profunda, que contrapôs à
estrutura da Igreja Católica, a qual desembocaria nas igrejas dissidentes
denominadas evangélicas; ou Giordano Bruno, um panteísta napolitano, de Nola,
queimado vivo no âmbito da terrível, abominável e nada santa Inquisição.
Uma das muitas figurações da Utopia de Thomas More
O
racionalismo, de que René Descartes, no século XVII, se reclama,
insistindo na equação lançada por Agostinho e retomada por Aquino do binómio fides
quaerens intellectum[23]
e vice-versa, e opinando que o conhecimento é gravado diretamente no espírito
pelo Criador, ao ponto de instituir o famoso cogito, ergo sum[24],
é também a opção de Blaise Pascal, francês de Clermont Ferrand, que o precedeu
no século XVI, bem como a de Baruck Espinosa, um expoente panteísta, de origem
portuguesa, nascido em Roterdão, a do otimista e matemático Gottfried
Willem Leibniz, de Lepzig, o inventor do sistema binário que se ia tornar na
base da informática, e, já pelo século XVIII adentro, a de George Berckeley, um
irlandês de Kilkenny, e a de David Hume, um escocês de Edimburgo. Todos se reuniram na Plataforma Cogito
da Sofinésia.
Mas
foi o iluminismo que corporizou a antítese do longo período escolástico,
ao eleger a razão como norma e autoridade para compreender o mundo, relegando
para segundo plano a fé em dogmas religiosos, e considerando mesmo que a
religião deve limitar-se ao foro íntimo de cada indivíduo. Os primeiros
iluministas foram Charles-Louis de
Montesquieu, de La Brède, na Aquitânia Francesa, e o parisiense François-Marie
Voltaire, se passarmos adiante o empirista inglês John Locke, de Wrington, para
quem o conhecimento não é conatural, mas nasce das sensações, seguindo-se um
importante lote de filósofos, desde o suíço Jean Jacques Rousseau aos
enciclopedistas franceses Diderot, de Langre, e Dalembert, de Paris, entre
outros, quase todos também franceses, levando a que em França e pelo mundo o
século XVIII passasse a ser designado de século das luzes, expressão que
traduzia mudanças notáveis em várias vertentes do funcionamento da sociedade,
desde logo o da política, em que o poder absoluto era desconsiderado,
aparecendo pela primeira vez a conceção tripartida do poder (executivo,
legislativo e judiciário), nascido do voto popular. Rousseau sistematizou esta
inovação revolucionária na estruturação do poder político em uma obra que ficou
para a História como o alicerce das que foram designadas democracias
ocidentais: o Contrato Social. Na vertente económica nascia o
liberalismo do laissez faire, laissez passer, que advogava a produção e
a distribuição livres de taxas ou de outras barreiras, um modelo que passou a
dominar o comércio internacional a partir daí. Todos se reuniram na Plataforma Lumen,
que inclui um condomínio reservado aos teóricos do liberalismo, o Via
Verde.
Convém destacar aqui Immanuel Kant, um grande
filósofo prussiano de Kalininegrado, que escreveu, entre outras obras de grande
profundidade, uma tríade complexa, cujo conteúdo foi catalogado de criticismo
subjetivista: (i)A Crítica da Razão Pura, na qual aborda a génese e
a estruturação do conhecimento; (ii)A Crítica da Razão Prática, em que
analisa a moralidade, a ética; e (iii)A Crítica da Faculdade do Juízo,
que deteta no espírito humano uma
espécie de memória ram, que estabeleceria a conexão entre os nossos
juízos morais e os empíricos, utilizando uma interface estética para
analisar o belo e o sublime, e uma interface teleológica[25],
para emprestar uma finalidade útil a cada objeto criado e percebido. Estudado e
seguido por outros filósofos, como Georg Wilhelm Friederich Hegel, de
Estugarda, que dá mais um passo ao afirmar a supremacia da História sobre todo
o tipo de elucubrações teóricas (“contra factos não há argumentos”), criando
mais uma chancela, a do idealismo, há nas reflexões de Kant um misto de
tentativa de síntese entre o empirismo e o racionalismo, mas também a
persistência de fortes dúvidas sobre a natureza humana e sobre o funcionamento
das suas faculdades, bem patentes no facto de estar a escrever, quando morreu,
em fevereiro de 1804, aos 79 anos, uma quarta “Crítica”, em que prosseguia no
esforço de compreensão da complexidade do pensamento humano. Afinal, a
confissão de impotência dos esforços da pesquisa para atingir fins últimos, tão
natural nos seres humanos de eleição… Na Sofinésia, ocupam a Plataforma Télos.
Arthur
Schopenauer, de Danzigue, prussiano como Kant, traz-nos, no século XIX, o voluntarismo,
sublinhando a capacidade humana para combater as paixões, com vontade e ascese,
ao passo que Soren Abyie Kierkegaard, de Copenhaga, aponta para o existencialismo,
uma corrente palmilhada também por Martin Heidegger, de Friburg; por Gabriel
Honoré Marcel, parisiense; por Jean Paul Sartre, outro parisiense e grande
expoente desta corrente, que coloca o foco na pessoa concreta e nas suas
reações individuais; por Albert Camus, um franco-argelino cuja obra literária
foi definida como absurdismo, sendo certo que foi um resistente
anti-fascista notável; e Friederich Nietzsche, outro prussiano, de Rocken, na
República de Weimar, que corta cerce com toda a ideia de transcendência,
‘anunciando’ a morte de Deus; é tido como um pós-existencialista e pós
estruturalista. Encontram-se todos estes pensadores em uma das plataformas
mais emotivas da Sofinésia: a Krísis.
John
Broadus Watson, de Traveler Rest, Carolina do Sul, foi o teórico do comportamentalismo,
uma teoria que interpreta, na transição do século XIX para o século XX, os
comportamentos de animais, estendendo depois a investigação aos humanos,
atuando com estímulos, que produzem reações, sem recurso a introspeção.
Uma
outra teoria que dispensa a introspeção é a do estruturalismo,
despoletada por Ferdinand de Saussurre, de Genebra, que entende existir por
detrás dos fenómenos uma estrutura, espécie de trama urdida por sínolos
antónimos, que os explica, de modo determinista, quer no âmbito da psicologia,
quer no da sociologia, quer no da linguística. Jackie Élie Derrida, um
franco-argelino de El Biar, aplica depois estas ideias à literatura, e Jean
William Fritz Piaget, um suíço de Genebra, à psicologia. Continuam as suas
buscas na Plataforma Behaviour.
Ainda
no século XIX campeia o materialismo, num regresso em força às teses
atomistas dos cireneus do século IV a.C., protagonizado agora pelas teses de
Ludwig Andreas von Feuerback, de Landshut, Baviera; por Karl Heinrich Marx,
mais um prussiano, de Trevis, na Renânia; e por Freiderich Engels, também
prussiano, de Barmen, Renânia, com efeitos práticos transformadores, por vezes
devastadores, na Rússia com Vladimir Ylyich Ulianov (Lenine), de Simbirsk, nas
margens do Volga, e na China com Mao Tse Tung, de Shaoshan, Shiangtan,
despoletando ondas de choque que perduram no tempo e varrem ainda o espaço
global, particularmente nos continentes mais pobres, África e América do Sul.
Na mesma onda se inserem os cultores do positivismo, de que Auguste
Comte, de Montpelier, é o expoente, e que procura classificar a filosofia em
três idades: a teológica, que busca explicações dos fenómenos naturais
numa transcendência divina; tendo-se seguido uma segunda etapa que procura
explicar tudo ainda por fatores de natureza transcendente; e,
finalmente, a física, que confia à ciência a missão de tudo analisar,
tudo explicar e tudo resolver.
Ainda
no século XIX, o grande Charles Darwin, de Shrewsbury, Reino Unido, deu um
impulso decisivo à tese evolucionista, já avançada por Kierkgaard e seguida por
um eminente jesuíta, Pierre Marie Joseph Teilhard de Chardin, de Sarcenat, Vale
do Ródano, que por sua vez foi influenciado pelo espiritualismo de Henri
Bergson, de Paris, que valorizava a biologia, a psicologia e a sociologia como
caminho de investigação da evolução humana. As teses evolucionistas foram,
depois da secessão reformista de Lutero, as que maiores convulsões originaram
na interpretação dos livros sagrados dos cristãos, pondo em causa pilares
centrais da doutrinação tradicional, como a tese do criacionismo ou as
construções à volta do pecado original. Prosseguem nas suas pesquisas, irmanados
nas plataformas gémeas Cell e Atom.
E
foram-se sucedendo, pelo século XX fora, novas e sucessivas teorias
filosóficas, como foi a do pragmatismo, protagonizada por William James,
de New York, para quem os fins justificam os meios, ou a do neorrealismo
de Bertrand Russel, de Trellek, País de Gales, conotado como liberal, pacifista
e socialista, numa demonstração de quanto o século XX foi uma encruzilhada de
caminhos à procura de uma mundivisão definitiva do homem/mulher, do seu entorno
e das causas e fins últimos da sua existência, individual e coletiva.
Parecendo
que nada mais de verdadeiramente original ficava para ser descoberto em teorias
de pensamento, sucederam-se ainda assim as correntes neo: neoidealismo,
com Francis Herbert Bradley, inglês de Clapham; neopositivismo, com
Claude Levy-Strauss, de Bruxelas ou o vienense Ludwig Joseph Johann
Wittgenstein; neorrealismo empirista-experimentalista, com Bertrand
Russel, do País de Gales… E vários outros. A Plataforma Neo é uma
das mais populosas e ativas na Sofinésia, o Limbo da Esperança, uma reserva de
sapiência de que se podem esperar revelações capazes de resolver as equações
mais complexas que sobraram da procura incansável de modelos de pensamento e de
vida levadas a cabo pelas legiões de ínclitos ativistas do pensamento que
ousaram empreender uma longa marcha por
carreiros escarpados, com o objetivo de decifrarem os labirintos em que a
filosofia se vai desdobrando, em demanda da felicidade almejada em paraísos
prenhes de mistérios que, à medida em
que vão sendo desvendados, embalam os nossos sonhos e aspirações de
bem-aventurança plena.
A
última plataforma em data a ser ocupada na Sofinésia está a acolher uma estirpe
nova de pensadores, emparelhados a máquinas de aceleração do pensamento e do
raciocínio, deixando transparecer a ideia de que se terá chegado a um patamar
de convivência cooperativa entre humanos e seres pensantes por eles criados ou
imaginados, capazes de interagirem através de robôs e avatares a
um ritmo e com uma intensidade ainda há pouco impensáveis, mesmo pelas mentes
mais criativas, como foram Júlio Verne, Orwel, Adams Huksley, Ursula Le Guin,
Isaac Asimov, William Gibson, Arthur Clarke, H. G. Wells, Margareth Atwood ou
Philip Dick. Já não se trata de fantasia ou ficção, estão criadas ligações sem
o condicionamento de conexões físicas ou fisiológicas, o hardware
transforma-se rapidamente em soft, desde que foram criados
microprocessadores e sensores capazes de extrair, desencriptar e retransmitir
sons, luz e formas em circulação no espaço sideral, a que se seguiu a assim
chamada Inteligência Artificial Generativa, que se tornou capaz de percorrer
neurónios quase virtuais e ler o pensamento de pessoas, animais e máquinas, e
com isso prevenir decisões e acontecimentos, parecendo poder vir a isolá-los do
poder do decisor, no termo de uma inversão do processo protocolar de raciocínio
e de cálculo…
Dir-se-ia
que nas encruzilhadas das laboriosas pesquisas de séculos de filosofia a
transformar questionamentos e hipóteses em ciência, esta, de conluio com a
tecnologia, acabou por tomar o freio nos dentes e parece apostada em demonstrar
que pouco ou nada deve permanecer em definitivo no desconhecimento, numa
atmosfera de obscura transcendência, concluindo por fim que o “conhece-te a ti
mesmo” sentenciado pelo mesmo Sócrates que considerava nada saber, e inscrito
no pórtico do Templo de Apolo em Delfos, encostou a humanidade vindoura, em
especial a comunidade mais votada à pesquisa, à responsabilidade de tomar, por
seu turno, as rédeas da História, e que o “só sei que nada sei” socrático veio
desembocar em um “é minha responsabilidade e meu dever consolidar o saber que
sei”, aprofundando a introspeção e estendendo-o à compreensão do mundo
exterior, e confiar na missão comunitária da humanidade no seu conjunto, em co-working,
de conquistar o domínio da Natureza, respeitando-a e preservando-a.
O
fides quaerens intellectum, a que a Escolástica contrapôs o intellectum
quaerens fidem parece ter desaguado definitivamente em um homo quaerens
hominem, afinal retomando o γνῶθι σεαυτόν do Templo de Apolo, o Homem
fulcral que o cínico Diógenes procurava em Atenas com uma candeia acesa em
pleno dia… Por mais voltas que a pesquisa dê, à procura de explicações
miríficas ao desenrolar da História, balanceando-se entre espírito e corpo,
entre razão e emoção, entre matéria e forma, entre transcendência e imanência,
entre virtude e vício, entre vontade e destino, voltamos a uma constatação
sempre em pé, a saber, que a solução para os desafios que nos são postos em
contínuo está a cargo dos humanos, que, chamados à vida, recebem como missão e
condição de sucesso enfrentá-los e procurar-lhes a solução mais adequada,
individual e coletivamente.
Na
verdade, a Filosofia, com as interrogações que vai suscitando ao longo do
tempo, nas comunidades humanas em que prospera e faz caminho, vai
diversificando, aprofundando e enriquecendo o conhecimento, ao mesmo tempo que
a Ciência lhe devolve em dobro novos alfobres de dúvidas e hipóteses a
esclarecer, numa troca virtuosa de ganhos mútuos de realidade aumentada em
contínuo, potenciada pela descoberta de novas ferramentas, cada vez mais
poderosas, capazes de transformar dúvida em certeza, ambição em conquista,
agressividade em generosidade, carência em riqueza, angústia em felicidade...
Até que resplandeça a LUZ nos Céus… Todos os Céus! O mesmo Céu que nos abriga a
todos!...
[1] Módulos
nucleares da formação da crosta terrestre
[2] A
Sofinésia será, alegadamente, uma entidade híbrida, uma síntese inteligente e
autossustentada dos elementos vitais (Terra, Fogo, Ar e Água), gerada por
Neptuno, o deus romano dos mares, com Clito, a mãe de Hércules, tendo este sido
postado numa posição estratégica, entre o Gonduana e a Laurásia, para velar
pela sua irmã submersa. Uma espécie de contraponto dos Campos Elísios do
submundo da mitologia greco-romana, desta vez não para julgar, premiando ou
castigando atos da vida terrena, mas para acolher os humanos “que por
pensamentos valerosos se vão da lei da morte libertando”, parafraseando um
célebre escritor ainda vindouro….
[3] Epíteto
da Sofinésia,
[4]
Universo, entendido como Sistema, complexo e ordenado.
[5] Razão
[6] Do grego
maieutikê, que reporta à arte da obstetrícia, um processo bem plasmado
na expressão que se vulgarizou “da discussão nasce a luz”.
[7] O termo
grego Arkê significa “princípio”-“origem”-começo”. Desde tempos
imemoriais que a identificação da força motriz geradora da vida se apresentou
ao pensamento humano como o mais complexo desafio, desencadeando formulações
sucessivas de questionamentos sem uma resposta que saciasse a sede de
compreensão dos filósofos ao longo do tempo. A água (Tales de Mileto); o
éter - na aceção de Infinito – (Anaximandro de Mileto); o ar
(Anaxímenes de Mileto); a terra (Xenófanes de Cólofon); o Fogo
(Heráclito de Éfeso); o número (Pitágoras de Samos); os 4 Elementos – terra,
ar, fogo e água, em conjunto – (Empédocles de Agrigento); homeomerias
– partículas invisíveis – (Anaxágoras de Clazormena); ou átomos
(Demócrito de Abdera), foram as primeiras hipóteses aventadas pelos filósofos
das Escolas Gregas da Antiguidade Clássica, ficando a ideia, nem sempre
expressa, da atribuição desse papel de causa última das coisas e da vida a um
Deus ou deuses, eventualmente transcendentes.
[8] Mundo
superior, uma espécie de matriz perfeita e imutável, que guarda os protótipos
originais (arquétipos) de tudo o que existe, em modo de espelho, no mundo
visível.
[9]
Vocábulo introduzido no discurso filosófico no século XIX para expressar que
tudo o que existe é constituído de matéria (hyle) e forma (morfê),
um conceito avançado pelos filósofos da Grécia Antiga, estabelecido por
Aristóteles e desenvolvido na Idade Média pelos filósofos Escolásticos.
[10]
De sún, prefixo grego significando união. Aristóteles firmou este
conceito em contraponto com o seu Mestre Platão, que considerava os seres reais
separados dos que percebemos, num mundo à parte.
[11] O
Silogismo é um raciocínio, que pode ser dedutivo ou indutivo, desenvolvido em
duas premissas, uma maior e outra menor, que geram uma conclusão, cujo acerto
deve ser testado com um conjunto de regras, evitando conclusões viciadas, como
as dos sofismas ou das falácias, ou com os princípios de identidade, de não
contradição e do terceiro excluído.
[12] De hédon,
prazer.
[13] De Eklektikós,
em grego, que significa ‘melhor escolha’.
[14] Sunkretismós,
termo que traduziu na origem a União das Cidades-Estado da Ilha de Creta.
[15] Sendo
contemporâneo de Cristo, não consta que tenha chegado a inteira-se das suas
doutrinas, transmitidas oralmente a um grupo restrito de seguidores, só mais
tarde vertida em escritos, pelos Evangelistas e por Paulo de Tarso, a partir de
50 d.C.
[16] Outrora
politeísta, o povo de Israel tornou-se monoteísta depois do exílio babilónico, adotando
o nome de Yavé para invocar o Deus único, criador e omnipotente, mais
tarde substituído, por respeito ao sagrado, pelo pseudónimo Adonai.
[17] Acusado
em 41de ter cometido adultério com uma sobrinha do Imperador Décio, este
Imperador exilou-o para esta ilha do Mediterrânio. Voltou após alguns anos,
protegido por Agripina, mãe de Nero.
[18] O
conceito de Ubuntu traduz-se na máxima “eu sou porque nós somos”.
[19] As
quatro categorias de ntu: humanos; coisas não inteligentes; as
coordenadas espaço-tempo; e os modos e circunstâncias que afetam a existência
(uma faceta de pensamento marcadamente existencialista).
[20]
Agostinho nasceu na Numídia, em Tagaste, atual Souk Haras, na Argélia, e foi
bispo de Hipona, também na Numídia, atual Annaba, igualmente na Argélia.
[21] No
atual Uzbequistão
[22] Também
o topónimo da Plataforma dos renascentistas na Sofinésia.
[23] A fé
questiona a razão; uma asserção que, na doutrina escolástica, apela, em
complemento, a sua inversa: a razão questiona a fé…
[24] Penso,
logo existo.
[25] Do
grego téleos, finalidade, objetivo,+logos; a não confundir com teológica.
Comentários
Enviar um comentário