43 A Lenda da Sofinésia

 

Consta que existe, em modo temporal tão diáfano que ninguém até agora logrou estabelecer-lhe os limites, exceto que é concomitante à incerta emergência da humanidade pensante e comunicante, desde a Pré-História às Idades a que se convencionou chamar Antiga, Média, Moderna, Contemporânea e Pós-moderna, sendo, no entanto, plausível elucubrar a hipótese de que as congeminações da plêiade de pensadores que adiante se reportam teriam subsistido para além das suas breves passagens pela existência efémera das geografias e lapsos de tempo em que os seus mentores nasceram e morreram, logrando eles, também, uma vida nova, em um espaço entre físico e virtual, não menos misterioso mas imaginável, no qual levitam, em estado de espera graciosa, os humanos que vão passando pelo mundo finito, mas dele merecem migrar, numa espécie de sublimação, para um patamar de perenidade etérea, no contexto de uma mundivisão platónica de vários mundos paralelos, movendo-se a diferentes velocidades, porém sincronizadas, à imagem dos corpos celestes, ajustando e conciliando as suas órbitas, espaço esse, enigmático e mutante, engendrado na infimidade do pequeno Planeta número três do sistema solar, pela dança de espessos cratões[1] que se foram aglutinando, algures na confluência dos grandes blocos Gonduana e Laurásia, de que resultou a Pangeia, a qual haveria, por seu turno, de se expandir de novo, num refluxo telúrico de que nasceram os continentes e as ilhas, separados-unidos pela fluidez dos oceanos, num ordenamento que se manteve ao longo de todas essas Idades, descontadas pequenas alterações decorrentes de erupções vulcânicas e abalos tectónicos, mas deixando, contudo, submerso mas vivo, e mesmo intensamente ativo, contido numa espécie de reserva nuclear, comprimida e oculta do comum dos mortais, um arquipélago aglutinando núcleos resilientes desses cratões, quais neurónios ligados por veios de conexão, à laia de axónios  e sinapses da espessura de cabos submarinos que transportam e armazenam não só uma espécie de memória coletiva do passado de toda a vida histórica da humanidade, que foi prosperando ao longo dos tempos num devir controverso pontilhado com episódios de aparente autodestruição, paradoxalmente criativa, alternando caos com reformulações, evidenciando uma apetência estaminal para se reinventar em sucessivas e ininterruptas metamorfoses, como ainda, num eflúvio de inteligência sintética suscetível de aumentar e aperfeiçoar exponencialmente o conhecimento e, para cúmulo, de o otimizar e reestruturar, suscitando fluxos combinados de deduções e induções, gerando sínteses fantásticas, incrivelmente inovadoras, a que estes romeiros do pensamento ascendem, ao migrar para esse novo mundo, a um grau elevado de aptidões, em que se inclui a premonição do futuro, num meio ambiente novo, neptúneo[2], asséptico e perene.

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Uma perspetiva da Sofinésia

Bem-vindos ao poliéden da Sofinésia, um vasto conjunto de plataformas imersas, santuário de arquétipos de todos os conceitos e sistemas filosóficos de todas as civilizações, fundeado algures onde dizem ter-se submergido a mítica Atlântida, em parte tectónicas, de relevo acidentado, povoadas por uma fauna demersal de profundidade, e em parte coralinas, povoadas de cardumes das mais variadas espécies piscícolas, vagueando por corais polícromos e ondulantes que abrigam, outrossim, jazigos de deuses míticos, e agora de portas virtuais franqueadas à fina flor dos humanos em sobrevida, que vão, vencendo a morte, ingressando na dimensão imorredoura da criatividade transcendente, regenerativa, inclusiva, transdimensional…

Em cada uma das Plataformas da Sofinésia, nas quais se desvanecem as contingências do tempo e do espaço, da finitude ou das fronteiras, das necessidades biológicas, transacionais ou de mobilidade, mas, em contrapartida, em que se apura uma gnosiologia requintada e imorredoura, na qual as diferenças que outrora separavam passam a ativos de atração mútua e se combinam em matizes e formas caleidoscópicas de harmonia deslumbrante, sobrevivem, numa colegialidade idílica, pacífica, consensual e pós-material, estirpes de pensadores e artistas, inteiramente dedicados ao apuro das mundivisões de que fizeram história no seu tempo finito e espacial,  das quais prosseguem o cultivo, reformulando-as e refinando-as, à espera da Idade derradeira, a que chegará com o reagrupamento definitivo da Pangeia, algures no Cosmo, no indefinido Éden do Conhecimento, da Paz, da Concórdia e do Amor, imenso e luminoso, em que ocorrerá, emergindo em epifania resplandecente, a Grande Desambiguação entre os diversos olhares sobre o Universo, entretanto aprimorados em cada uma das plataformas até então submersas, e na qual se manifestará, no arranque do Tempo Novo, a organização do grande evento do reagrupamento universal de uma humanidade enfim restaurada e reequilibrada no mundo redimido do Bem, da Justiça e da Beleza.

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Plataforma coralina

Os primeiros inquilinos começaram a chegar, oriundos da História do Pensamento, da Ética e das Artes, às águas preclaras da Sofinésia, vindos da África, do Médio Oriente e da Europa, desde há quatrocentos milénios em diante, e foram-se acomodando na Plataforma Sapiens-Neandertal, a mais exígua e profunda das que compõem o Limbo da Esperança[3]. À época, mesmo tendo ascendido à perpetuidade, os recém-chegados nada sabiam dos que os haviam precedido, na Gonduana ou em outras geografias, quanto a conquistas mais ou menos bem sucedidas na busca, na sistematização  e na comunicação do conhecimento, dado que o modo de o testemunharem, depois de o terem captado, de forma ainda pouco estruturada, dos seus semelhantes ou da Natureza, se limitava a pouco mais do que pinturas rupestres e balbuciamentos muito rudimentares, limitações que eram majoradas em modo passivo pela escassez dos que por esse tempo sobreviviam à predação das feras e ao rigor das intempéries, a tempo e com meios de registarem o seu testemunho, antes que a morte os colhesse. Só bem mais tarde tiveram notícia de Lucy, que vivera em Afar, na Etiópia, mais de três milhões de anos antes deles; ou de Pé Pequeno, que consumira os seus dias um pouco antes deles no tempo, mas longe, no extremo sul do Continente-pai da humanidade, nas proximidades do Cabo das Tormentas; ou do seu vizinho geográfico, mas ainda mais longínquo no tempo, Sahenlathropus Tchadensis, ancestral de há quatro milhões de anos, cuja existência, porém, só viria a ser-lhes revelada com a chegada dos arqueólogos do século XX, Donald Johansen, Tom Gray, Ron Clarke ou Toumai à vizinha Plataforma Lógos da Sofinésia.

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Meditação

Já a Plataforma Nirvana começou a acolher, mais recentemente, desde há cinco milénios, vindos do Indostão, pensadores bem mais sofisticados que os seus pares da Sapiens, pois já explicavam o ciclo de sucessão da vida, que ocorreria através da reincarnação, como processo de aperfeiçoamento do espírito, imorredouro, habitando penitentemente sucessivas criaturas, da mesma ou de outra espécie, em alteridade física e geográfica (dukkha), consoante a progressão ou regressão na sublimação espiritual conseguida, até atingirem a libertação da matéria e do sofrimento (samsara), pela prática da meditação, do yoga, de peregrinações, ou pela interiorização e exercitação de mantras e karmas estipulados em Escrituras a que chamaram Vedas. Uma filosofia que se perpetuou no tempo atá aos nossos dias, e no espaço, mormente por toda a Ásia, e dá pelos nomes de hinduísmo e budismo.                

Foi a partir do século VII antes de Cristo que as magníficas áleas de corais que conduziam à entrada dos portões da Sofinésia vibraram de todas as suas formas e cores, dando as boas-vindas à chegada de mentores de correntes filosóficas avançadas à Plataforma Lógos, a começar por Zaratustra, que vivera na Pérsia e aí condensara uma mundivisão muito elaborada, sendo mesmo  por alguns considerado o primeiro filósofo da humanidade, com legado deixado escrito em linguagem sânscrita, afirmando o livre-arbítrio dos humanos, professando a primazia de valores morais, presumindo a emergência de outra vida após a morte biológica, deduzindo da observação do comportamento dos vivos a inevitabilidade da existência de uma justiça transcendente que castigue o mal e premeie  o bem, de modo a repor a equidade que toda a Natureza reclama,  e inferindo do fascinante sincronismo em que a vida se move e reproduz, o pressuposto de uma Força Criadora de todas as coisas, com estofo para conferir sentido  e perenidade à harmonia das suas maravilhas.

Confúcio, que viveu na China de 551 a 479 a.C., chegou por esses tempos com o seu séquito à Plataforma Ren-Li-Xiao-Zhong-Shu-Wen, assim denominada para traduzir os grandes princípios da filosofia de vida confucionista: humanidade, bondade e benevolência (ren), prática de rituais de etiqueta e respeito (li), piedade filial, consideração pelos idosos e ancestrais (xiao), lealdade (zhong), reciprocidade (shee), cultura, educação, busca de equilíbrio intelectual e moral (wen). Promover a justiça e a ordem em vista do bem comum, era a conduta que cultivava esta doutrina filosófica, bem expressa na resposta que o Mestre terá dado ao discípulo Tzu-Kung, quando lhe perguntava que máxima devia ser seguida ao longo da vida e lhe respondeu enunciando um preceito que seria retomado pelos melhores sistemas de conduta a partir daí: --“Nunca faças aos outros o que não gostas que te façam a ti”…

Seguiram-se os filósofos gregos e romanos, primeiro Tales de Mileto, da Escola Jónia, tido como o primeiro cientista conhecido, ao descartar, porque desnecessárias, explicações mitológicas para os fenómenos naturais, e pelos raciocínios matemáticos, como o que deixou expresso no teorema do seu nome, tentando perceber e explicar a mensurabilidade do Universo, seguido por Anaxímenes, também de Mileto.

Depois, no decorrer dos séculos VI e V a.C., veio um punhado de filósofos da Escola Pitagórica, com o próprio Pitágoras, de Samos, a sublinhar a harmonia do Universo, à imagem do teorema que também nos legou, na linha do cálculo matemático de Tales, pelo qual mede as proporções de um triângulo, por sua vez simbolizando a admirável proporcionalidade de toda a criação, e cuja regra de vida virtuosa consistia em seguir as leis da Natureza, imanentes a todo o Cosmos[4] - o Lógos[5] -, optando pelo Amor e repudiando o Ódio, para assim fugir à morte e obter a natural inserção na Vida Perene, ideias que foram aprofundadas nos séculos subsequentes, por outros filósofos da mesma Escola, como Heráclito de Éfeso, Anaxágoras de Clazomena ou o siciliano Empédocles, de Agrigento, além de vários outros, entre os quais convém destacar Demócrito de Abdera, tido como o precursor do materialismo, ao lançar, com o seu conterrâneo Leucipo, o atomismo, considerando na altura, numa visão cósmica já avançada, que o átomo era a partícula indivisível do universo, e concluindo que este é constituído de vários mundos, além  daquele que era então conhecido…

No início do século IV a.C. chegaria, de Atenas, Sócrates, cujo legado deixara um rasto de incerteza inquietante ao afirmar, no termo de setenta anos de uma vida predominantemente académica, “só sei que nada sei”, e tendo-se recusado, por isso, a redigir obra escrita, pois considerava que isso seria incongruente com o carácter transitório, e logo precário, com que avaliava o seu saber. Foi graças ao seu conterrâneo e discípulo Platão, ao dramaturgo Aristófanes e ao historiador Xenofonte, todos expoentes da elite culta ateniense,  que nos chegaram, ainda assim, as suas teses filosóficas, no essencial em linha com as da Escola Pitagórica, assentes na centralidade da Razão, e que aprofundavam, em acréscimo, facetas inovadoras, como a da ética, à qual atribuiu centralidade na vivência humana; a da ironia, como forma de relativizar atavismos, abrindo caminho a um pensamento desinibido e esclarecido; ou a do método, traduzido num processo de questionamento penetrante e exaustivo, que ficou conhecido como maiêutica[6], destinado a desmontar preconceitos, em favor de uma busca corajosa e imparcial da verdade das coisas e dos acontecimentos.

Platão, também ateniense e discípulo de Sócrates, que desenvolveu o seu pensamento filosófico no século IV a.C., deu novos passos na inteligibilidade do universo, numa vertente analítica, manifestando a opinião de que nós os humanos não conseguimos discernir os seres perfeitos, porque eles existem num mundo superior que nos é oculto, mas, ao contrário dos nossos sentidos, a nossa mente consegue entendê-los; ao passo que, ao invés, captamos com os nossos sentidos as “cópias” terrenas desses mesmos seres, mas temos dificuldade em entendê-las e explicá-las, por não passarem de uma espécie de sombras imperfeitas dos seus originais… Temos, pois, segundo o entendimento de Platão e dos filósofos da sua Escola, três mundos a desafiar o nosso entendimento: o que contém as formas reais, belas e bondosas do mundo, geradas pelo Arkê[7], e o seu reflexo, com as limitações próprias de uma cópia a espraiar-se nos horizontes que os nossos sentidos captam, no mundo menor em que nos movemos, sem contudo a conseguirmos explicar, cruzando-se esses dois mundos, numa dualidade perturbadora, com um terceiro, aquele em que a nossa mente ensaia conciliar os dois, esforçando-se por emparelhar a cópia com o original, inteligindo e assimilando, por um lado, as formas importadas do hiperurânio[8], e tentando, por outro, plasmá-las na matéria, ela sim observável e palpável pelos nossos sentidos, no modo e na proporção convenientes. Ficavam assim lançados os conceitos da subjetividade, da objetividade e da transcendência, que alimentaram e continuam a alimentar o debate filosófico e científico, ético e estético das sucessivas gerações de pensantes, e a incentivar a acuidade interrogativa da Filosofia, a resiliência experimental da Ciência, a sede de justiça da Ética, a criatividade da Investigação, o anelo pela beleza das Artes, num ciclo inconsútil de movimento perpétuo no palco existencial, estreito na base e alargando-se à superfície, com epicentro na Sofinésia, como se o hiperurânio tivesse mergulhado no oceano para se proteger de meteoritos ou da proliferação de satélites na exosfera deste pequeno rincão do Universo...

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Escola peripatética

Aristóteles, jónio de Estagira, mas aluno de Platão em Atenas, o terceiro e último dos grandes clássicos helénicos, veio projetar a abóbada deste ciclo pitagórico dos pensadores da Grécia Clássica, com a pedra-chave da sua tese hilemórfica[9], que considera, ao contrário de Platão, todos os seres como sínolos[10] de matéria e forma fundidos, explicando, num exercício algo complexo de semântica, que a matéria entra na equação do ser como potência, enquanto que a forma (a não confundir com formato, ou molde) é a essência, como que a alma que confere ação à potência latente na matéria, sem por isso discordar dos filósofos da sua Escola quanto à natureza dessa forma-força-ação, que não é gerada pela matéria, pois é uma centelha do arkê, a fonte misteriosa da vida. Por outro lado, a sua arquitetura do raciocínio em forma de silogismo[11] introduziu rigor no discurso, fornecendo à Lógica uma das suas ferramentas nucleares para o bom desempenho de múnus como o da jurisprudência ou o da retórica, e à ciência um sólido travejamento à sua veia jugular, a experimentação… Dado que Aristóteles não era cidadão ateniense, e por isso não podia adquirir propriedades nessa Cidade-Estado, o ensino que ministrava era exercido no Liceu, ou simplesmente passeando-se com os alunos, razão pela qual a sua Escola ficou conhecida por peripatética.

Na esteira da valorização da ética, professada pelos clássicos gregos desde Sócrates, filósofos como Zenão de Cítio e Crisipo de Solis levaram o culto das virtudes ao auge na cadeia de fatores de valorização pessoal, numa Escola de pensamento que se manifestou em Atenas no decorrer do século III a.C. e ficou conhecida por estoicismo, considerando que a felicidade advém da prática das quatro virtudes cardeais: a sabedoria, ou prudência; a coragem, ou fortaleza; a temperança, ou moderação; e a justiça, ou equidade; e não tanto da saúde corporal, da riqueza material ou do prazer físico; uma via de certo modo oposta à dos epicuristas (designação derivada do nome do seu mentor, Epicuro de Samos – século IV a.C.), para os quais a mesma felicidade era atingida pela prática moderada dos prazeres simples da vida, da qual adviria a conquista da tranquilidade e do destemor, proporcionando o gozo de uma saúde equilibrada que afasta o sofrimento físico e moral.

Antes dos epicuristas e dos estoicos, na transição do século V para o século IV a.C., um trio de cireneus, Aristipo, Teodoro e Hegesias, cultores, como os epicuristas, de um certo materialismo atomista e empirista, professaram o hedonismo[12], uma mundivisão particularmente atraente, na medida em que aposta no prazer como valor maior, mas obtido mais pelo desejo, fluido e infinito, que pelo usufruto, efémero e fugaz, sublinhando até a ligação intrínseca do prazer à dor, mas corporizando um elo deveras interessante no balancear dialético da procura de caminhos do conhecimento, como viria a verificar-se com a recorrência do tema pelos séculos fora, com pensadores hedonistas de todas as eras a elucubrarem sobre as facetas psicológica-motivacional, ética-normativa, axiológica-avaliativa, ou ainda a estética do prazer, ou, por outra, o prazer da estética, num esforço de responder ao que ficou conhecido como Dilema de Eutífron, um pensador coevo de Sócrates, trocando as voltas ao conceito, aplicado à beleza: -algo é belo porque gostamos, ou gostamos porque é belo? -Um malabarismo que pode ser cotejado com a asserção de Agostinho de Hipona, bem mais tarde, ao denunciar o comportamento dos que pensam como vivem, em lugar de viverem como pensam

Já os cínicos, que tiveram o primeiro mentor em Antístenes, de Atenas, e precederam, na transição do século V para o sáculo IV a.C., os estoicos, exacerbavam o entendimento da prática das virtudes e consideravam de capital importância para o indivíduo conquistar total independência, plena liberdade e autossuficiência, o que implicava desligar-se da riqueza, da fama e dos prazeres, assim como de tudo o que seja exterior, para não arriscar sofrer com a dor como reverso da medalha. Um dos expoentes do cinismo foi Diógenes de Sinope, de quem ficaram para a história episódios pitorescos, demonstrativos do desapego aos bens terrenos que professava, com exceção do usufruto da Natureza, que cultivava com esmero, como quando terá respondido, sem cerimónias, a Alexandre, o Grande, que o visitava, à boca do meio-barril em que habitava, e lhe perguntava se necessitava de alguma coisa: --“sai-me da frente, não me tapes o sol”… Ou quando respondeu a quem o inquiria sobre porque razão andava de candeia acesa em riste à luz do dia: --“ando à procura de um Homem”. Diógenes era conhecido em Atenas como “o Cão” (kynos), ao que parece por morar numa espécie de casota como este fiel amigo dos humanos, ou, segundo outras fontes, por ministrar o seu ensino numa zona em que abundavam cães, advindo daí, ao que parece, o nome por que ficou conhecida a corrente filosófica que professava.

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Como normalmente acontece, ao ritmo do encadeamento dialético em que evoluem o pensamento, o planeamento e a ação, também a sucessão de modos de ver, de interpretar e de imaginar o mundo e o papel do ser humano pelo investimento que faz no desenrolar da sua existência, passou por momentos de saturação e de dúvida, numa daquelas hesitações que regularmente ameaçam paralisar a corrente da evolução humana, em que o processo de síntese entre pontos de vista aparentemente opostos passa pela prova do caos. Foi o que se passou com a onda de ceticismo que medrou na Escola de pensamento filosófico encabeçada por Pirro de Élis, na transição do século IV para o III a.C., que, à semelhança de Sócrates, optou por nada deixar escrito, valendo-nos mais uma vez os seus seguidores para acedermos às suas teses filosóficas, que foram seguidas por diversos pensadores, como Tímon de Fliunte, seu condiscípulo, e mais tarde, a caminho do século II a.C., por Arcésilas, Carnéades e Clitómaco, da Nova Academia; Fílon de Larissa, Enesidemo de Cnossos; e, já na Nova Era, do século II para o III, pelos médicos Menodoto de Nicomédia, Teodás de Laodiceia e Sexto, o Empírico, de Tarso.  Tal como os estoicos, os epicuristas, os hedonistas ou os cínicos, e, convenhamos, tal como qualquer humano, filósofo ou não, ou mesmo como qualquer ser vivo em geral, a procura da felicidade, seja qual for a sua natureza e grau, num equilíbrio que dê sentido à existência e a prolongue, se possível para além da morte, individual e coletivamente, foi e continua sendo o móbil último de toda a pulsão de vida…

É ainda de relevar o ecleticismo[13], inaugurado na antiguidade helénica por Antíoco de Ascalão, no século III a.C., e professado por diversos pensadores de outras correntes, sobretudo a estoica, como Panécio de Rodes no séc. II a.C. e Posidónio de Apameia no séc. I a.C., que vem sublinhar outra constatação insofismável, a saber, que as diversas teorias filosóficas estudadas nas várias escolas nem contêm individualmente toda a verdade, nem tão pouco se excluem mutuamente, pelo que a mesma deve ser procurada harmonizando em puzzle bem estudado e congruente as conquistas consumadas por cada uma das correntes em presença, um posicionamento que chega assim a um novo conceito, o de sincretismo[14], que teria o condão de adicionar, otimizando-as, as diversas mundivisões em confronto, logrando assim atingir o objetivo maior do processo dialético: o equilíbrio virtuoso da síntese….

Na charneira entre a vaga de pensadores da era antiga, basicamente os gregos, e o advento da sua reformulação cristã, emergiu um filósofo judeu (20 a.C. – 43 d.C.), Fílon de Alexandria, que, à semelhança do Farol ícone da sua Cidade, projetou, sem disso se aperceber, um clarão deveras esclarecedor sobre como a trama do pensamento filosófico que se tecera ao longo do último milénio moldaria, tal como à sua, a filosofia cristã ensinada por Jesus, seu contemporâneo nascido e vivido à distância de setenta meras léguas lineares... Conglomerando a corrente platónica, a cética e a eclético-sincrética, empenhado em interpretar a Literatura Sagrada do Antigo Testamento[15] à luz da reflexão filosófica helénica, traçou um paralelo entre o hiperurânio, de Platão, com o Deus transcendente e perfeito dos judeus, pondo ainda assim de parte a tese panteísta, ao fazer notar que por  ser imanente, imóvel e incorruptível, Yavé[16] delega toda a ação em um demiurgo, o Lógos, a quem chama primogénito de Deus, distinto do mundo material, traço de união entre Deus e a sua criação, expiador de pecados do seu povo (judeu), criador de todas as coisas,  culminando na criação do homem, que dotou, em tricotomia, de mente (nous), alma (psikê) e corpo (soma), conforme uma espécie de manual de arquétipos do mundo superior, que reproduz no mundo inferior exercendo os seus poderes, que descreve como anjos

Era chegado o limiar da era inaugurada pelo galileu Jesus de Nazaré, o Messias improvável do povo de Israel, que vincaria radicalmente o ângulo mais luminoso da História da sapiência, ao demonstrar, com a força de uma razão eivada de afeição à Natureza, à Verdade, à Justiça e à Beleza, conceitos tão estruturalmente presentes no âmago da investigação do vasto séquito de pensadores do mundo helénico-romano que decorria, sem exclusões, mas em contraciclo com a razão da força, até então o êmbolo de todos os avanços e recuos resultantes das convulsões conhecidas, tantas vezes enviesando teorias magnânimas com práticas ínvias que conduziam ao domínio do homem pelo homem, tão comuns no tubo de ensaio em que se vinha movendo a humanidade. Homem divino, cuja filosofia implicava considerar também divinos todos os seus semelhantes, de uma brandura tão admirável e cativante quanto firme e convincente, emergindo de uma “Escola” ignota, sem teorias novas, mas ao arrepio da práxis que fazia caminho em Jerusalém, pretendendo erguer uma nação, aberta a toda a gente mas sem exército nem armas que a impusessem, a não ser a da Palavra apontada à inteligência racional e emocional de quem o ouvia, a sua missão era maior que o mundo: congregar e chamar à plenitude de realização, individual e comunitária, toda a criação e requalificar a tabela de valores em curso, quer contornando as potestades reinantes no então Império Romano, que se estendiam aos estados suseranos locais, como era o da Judeia, esclarecendo que não pretendia combater as leis vigentes, na altura plasmadas em cânones que filtravam a admirável progressão do pensamento das comunidades de pensadores do Médio Oriente, finalmente registadas e legadas em suportes transacionais duradouros, mas sim dar-lhes cumprimento, quer depurando-as do formalismo hipócrita em que caíra a grelha de conquistas filosóficas e religiosas dos mentores do seu próprio país, Israel, quer simplificando-as ao extremo em um conceito nuclear: a felicidade de cada indivíduo está em partilhar-se com os outros indivíduos, amando-os como se ama a si próprio e não lhes fazendo a eles o que não quer que eles lhe façam; o mesmo valendo para a definição de felicidade coletiva, indissociável da harmonia universal, sem qualquer discriminação… Tal como Sócrates e outros filósofos que o precederam, Jesus nada deixou escrito, a não ser algumas palavras e desenhos rabiscados no pó da terra com gravetos, quando comunicava com quem o seguia, no estilo peripatético característico da época quando se enveredava por ideias inovadoras, fora dos templos e das escolas, e seriam algumas das testemunhas que o seguiram que deixariam gravadas as suas memórias e a sua doutrina, na língua grega comum (koinê), uma das usadas por Jesus, a par do aramaico e do hebraico. Mas seria estulto não dar importância à clarificação que a doutrina cristã (a verdadeira, ainda sem camadas de disfarces com que veio a ser maquilhada a sua limpidez unívoca e cristalina) trouxe ao emaranhado de edificações filosóficas tecidas até então em busca de respostas às dúvidas de humanos no encalço da Verdade…

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Também Lúcio Aneu Séneca, igualmente contemporâneo de Jesus Cristo, fez de algum modo a ponte entre o helenismo filosófico e a nova era que raiava, percorrendo como ele, em pista paralela, um caminho de pensamento e de doutrinação muito próximo, embora a partir de uma base estoica e epicurista… Terá sido o primeiro grande pensador e erudito nascido na Bética, Península Ibérica, mais precisamente em Córdoba, de um casal de colonizadores romanos, de onde partiu menino para Roma para aprender oratória e filosofia. Não foi tanto um teórico de alguma ou de várias das teses filosóficas vigentes, que bem conhecia por as ter estudado em profundidade em Alexandria e depois no exílio da Córsega[17], mas um pragmático, por ter da vida uma visão operacional, de homem abastado e poderoso, tendo que lidar com resistências e adversidades, no exercício dos cargos de Senador, depois de Pretor e ainda de Preceptor de Nero, o filho de Agripina, a quem o poder, desgraçadamente, ao ter-se tornado Imperador aos 17 anos, toldou a mente e tornou desequilibrado e desconfiado ao ponto de cometer crimes horrendos, como o incêndio que devastou boa parte de Roma, incriminando os cristãos, que perseguiu sem freio, ou o assassinato de quem lhe parecia que se lhe opunha, incluindo a sua própria mãe, Agripina, até condenar o próprio Séneca ao suicídio, quando o Preceptor, que o apoiara nos primeiros anos de governo, passara a adverti-lo da iniquidade dos seus crimes, sentença que Séneca auto-executou, à semelhança do que ocorrera com Sócrates, à boa maneira estoica, desta feita cortando os pulsos, depois de, também ele, beber uma infusão de cicuta… Deixou vasta obra escrita, agora em latim, como poeta, humorista, filósofo e dramaturgo, da qual rescende um pendor marcadamente estoico, de desapego dos bens materiais, que ainda assim consegue conciliar com a ideia liberal de gerar riqueza e dela usufruir, mas colocando-lhe baias, a saber, ter o que é necessário mas limitar-se ao suficiente, e manter prontidão para se separar de todos os bens, sem temor da morte, deixando mesmo caminho aberto à eutanásia, o que considera um posicionamento de sabedoria, acrescentando que o sábio, resiliente e desapegado, nunca será infeliz, devendo para isso concentrar-se no que pode controlar, sem se preocupar com o que não domina… Séneca veio juntar-se ao eclético Cícero, que o precedera, no século anterior, na Plataforma Latina, à qual se reuniria, no século seguinte, o também estoico Marco Aurélio, Imperador…

Coincidiu no tempo com as digressões filosófico-teológicas de Jesus pelos caminhos puídos da Galileia, da Samaria, da Judeia e da Pereia - ironia da História! - chegar à Sofinésia, mais precisamente à Plataforma Totem, o primeiro balbucio das civilizações do Novo Mundo, tão novo que em todo o Crescente Fértil, na altura o orgulhoso santuário da que se cria ser toda a sapiência, nada se sabia, porém, do que haveria para ocidente do Império Romano, para lá das colunas de Hércules, a não ser apenas o temível desconhecido, que não seria senão um abismo, oxalá que cercado de muralhas poderosas e tranquilizantes, que impedissem o mundo então percebido e mapeado de deslizar para sinistros infernos sem fundo… Graças ao surgimento da escrita arawac na região de Izapa, no contraponto pacífico da península do Yucatan, onde o tempo começou por essa altura a ser registado em calendários que passaram a deixar à posteridade laivos de memória não só dos maias, como de culturas vizinhas algo avançadas, tais como, a norte, a olmeca, no México, predecessora da azteca, e a sul, a chorrera no Equador, ou a chavin na região andina, onde emergiria, das suas raízes, mas bem mais tarde, um longo milénio depois, a civilização inca.

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Ritual Inca

Berço da Humanidade, o Continente Africano tinha de ter, por natureza, garantida uma plataforma reservada na Sofinésia. Tendo mantido, a sul do Saará, na região dos Camarões e da Nigéria, estendendo-se para os reinos do Congo e do Zimbabwe, uma forte tradição oral, os seus filósofos mais antigos não se manifestaram individualmente nem elaboraram uma linguagem de transmissão estruturada, optando, em alternativa, por uma espécie de cordão umbilical sucessório para comunicar e socializar as suas máximas, pelo que a chegada dos pensadores da ancestralidade africana à Sofinésia se processou solidariamente por tribos inteiras, desde logo as que corporizaram a filosofia buntu, e se estabeleceram na Plataforma Ubuntu[18]. Com efeito, o indivíduo, segundo o pensamento buntu, só ganha personalidade inserido na comunidade, que por sua vez se liga hereditariamente aos seus ancestrais e à Natureza, como um todo indivisível e comunicante, vivificado pela força vital, o ntu, que move os Um (humanos), as Ki (coisas), os Hu (espaço e tempo) e os Ku (circunstâncias que afetam a existência), num mundo que se ambiciona ser solidário e harmonioso, assim constituído por Muntu, Kintu, Hantu e Kuntu[19]. A origem do mundo, do homem e da comunidade é explicada, de geração em geração, através de provérbios, mitos e narrativas, cuja conservação e transmissão está a cargo dos anciãos, que se vão revezando de geração em geração, e apela ainda, em modo oral, ao advento de uma sistematização intelectual comutável em linguagem fungível, para além de representações… Uma filosofia que supostamente deveria promover e garantir o bem comum, a resolução pacífica de conflitos, em um modelo de convivência ético, sustentável e genuinamente humanista. Assim o pensamento de elites ancestrais tivesse o condão de comandar a ação dos indivíduos e das comunidades herdeiras, sem desvios e apropriações…

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Baobá, a ágora africana

Separada da Ubuntu por um pequeno istmo situa-se a minúscula Plataforma Taiga, que acolhe as gentes setentrionais, Inuítes, Yupiks, Sami, habitantes desde o Alaska às canadianas Nunavut e Nunavik, à Groenlândia, à Escandinávia e à Sibéria, povos cultores de convicções existenciais animistas, como as africanas, professando um respeito profundo por toda a Natureza, que consideram habitada por espíritos que interagem com as suas vidas.

Em face de um conjunto tão notável de pensadores que douraram o período clássico da filosofia com mundivisões que pareciam esgotar os horizontes da pesquisa filosófica, desde o alvor da escrita até ao dealbar da nova era, pareceria que as grandes questões existenciais sobra a Vida, a Natureza e o Universo estavam enunciadas e, por outro lado, os alicerces das hipóteses de resposta às mesmas estavam, umas vezes patentes e outras vezes latentes, contidas nas numerosas correntes de pensamento elucubradas pelos filósofos da antiguidade, sem prejuízo de se ir sempre mais além, quer na abrangência quer em profundidade, parecendo claro que o grande estaleiro da pesquisa passava o testemunho para as mãos da ciência, da tecnologia e das artes, sem que isso significasse que o questionamento filosófico houvesse de sair de cena, ou sequer perdesse vigor. Porquanto, um dos grandes ensinamentos de toda a pesquisa filosófica já efetuada era o de que o percurso da vida, mormente a humana, contém no seu cerne a missão conatural de ir sempre mais além e mais fundo na compreensão dos eventos que a movem, a caminho de uma plenitude que parece sempre atirada para o futuro, num horizonte a atingir, que se confunde com a satisfação da sempre renovada centelha de apetite por uma felicidade com definição em devir, sabendo-se já que o próprio universo, tão vasto que ainda não lográmos sequer adivinhar-lhe os contornos, continua a expandir-se e parece até infinito. Neste cenário, e salvo melhor entendimento, o desenvolvimento do conhecimento vai-se desbobinando em ondas de perguntas e respostas, cuja cadeia de montagem passa pela filosofia, segue com a ciência, embeleza-se com a arte, firma-se com a ética, sendo certo que todos estes patamares devolvem questões uns aos outros e deles esperam respostas, num processo sem fim à vista…

E foi isso mesmo o que ocorreu. Vale, por isso, a pena percorrer, mesmo que sucintamente, os dois milénios desde então palmilhados de análise, averiguação e escrutínio do conhecimento filosófico, em diálogo com a ciência, com a arte, com a religião, com a ética, com a política, num corrupio entre a observação e a introspeção, entre a razão e a emoção, entre o sagrado e o profano, entre o belo e o feio, entre a harmonia e o caos, entre o direito e o dever, entre o que se acha bem e o que se acha mal…

Assim, entre o século II e o século V assistiu-se à implantação do pensamento cristão, incrustado em matriz neo-platonista, com Clemente de Alexandria, depois com Plotino de Licópolis, egípcio, e com Agostinho de Hipona[20], um numídio convertido à doutrina cristã, acabada de ser oficializada pelo Imperador Constantino, que criou a ciência teológica, no âmbito da qual entendeu que Deus é uno e trino, acrescentando à dualidade divina do judeo-helenista Fílon de Alexandria, interpretando Platão, uma terceira pessoa, a do Paráclito, testemunhado pelos discípulos de Jesus, que o enviara sob a forma de fogo, quando estavam reunidos e escondidos com medo, depois de o Mestre ter sido condenado e morto, às ordens dos poderes locais e coloniais, com a conivência ativa dos sacerdotes do Templo, em Jerusalém, e, como é recorrente em cenários populistas, com o aplauso da turba popular, para os consolar e lhes assegurar que estava vivo. Agostinho aprofundou a psicanálise, destrinçando no espírito humano os conceitos triangulares de mente, amor e conhecimento e, paralelamente, os de memória, inteligência e vontade.

A História conhecida não sinaliza a ocorrência de filósofos com grande notoriedade depois de Agostinho até ao final do primeiro milénio d.C. A corrente de pensamento que se seguiu foi a que se designa de escolástica, que dominou toda a Idade Média, do século IX ao século XVI. A preocupação dos escolásticos, que remonta a Agostinho e é retomada por Tomás de Aquino e numerosos teorizadores medievais, foi a de conciliar a fé cristã, com os seus conceitos exógenos de Providência, de Revelação Divina e de Criação, com o pensamento racional grego, aristotélico-platónico, servindo-se para isso da dialética como método para chegar ao conhecimento por inferência e para detetar contradições, no pensamento e na forma de o expressar, para poder corrigi-las. Estava a chegar a era das Universidades, e os Escolásticos encontraram duas fileiras de sistematização do grande Ensino Medieval: o Trivium (gramática, retórica e lógica), e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música), um conjunto vasto de matérias que trouxe um novo fulgor ao fluxo de investigação reflexiva e uma longevidade nunca antes vista de uma corrente filosófica estabilizada. Razão pela qual, todas estas sumidades, e muitas outras, ocupam a Plataforma Universitas na Sofinésia.

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Aula, numa Universidade Medieval

É também por esta altura, na transição de milénio, que chegam à Plataforma madrassa Avicena de Khomeitan[21], médico árabe islâmico xiita, cuja teoria filosófica não se diferencia substancialmente da escolástica, dominante na época, tendo mesmo vindo e influenciar Tomás de Aquino. Chega também à Sofinésia um outro árabe, igualmente islâmico, nascido em Córdoba, tal como Séneca, mas no século XII, que, ainda no contexto islâmico do Al-Andaluz, acompanha também a doutrina escolástica-aristotélica, e choca mesmo com a doutrina corânica ao afirmar que os conteúdos do Alcorão que não sejam condizentes com a razão e com a Filosofia devem ser interpretados alegoricamente…

A partir do século XVI, as correntes de pensamento filosófico atingem progressivamente mais elites pensantes, que se desdobram em ramificações sistematicamente marcadas por personalidades a cunharem tendências que ficaram ligadas aos seus nomes: no renascentismo, Erasmus de Roterdão, que preconiza um homem novo, nascido de uma dialética entre a Natureza e a Graça; o londrino Thomas More, que escreveu a famosa Utopia[22], em que avança com ideias revolucionárias para a época, pacifistas e igualitárias, que lhe valeram a condenação à morte por Henrique VIII, confrontado por Tomás com a imoralidade do divórcio do rei; Lutero, de Eisleben, Saxónia, que despoletou uma Reforma profunda, que contrapôs à estrutura da Igreja Católica, a qual desembocaria nas igrejas dissidentes denominadas evangélicas; ou Giordano Bruno, um panteísta napolitano, de Nola, queimado vivo no âmbito da terrível, abominável e nada santa Inquisição.

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Uma das muitas figurações da Utopia de Thomas More

O racionalismo, de que René Descartes, no século XVII, se reclama, insistindo na equação lançada por Agostinho e retomada por Aquino do binómio fides quaerens intellectum[23] e vice-versa, e opinando que o conhecimento é gravado diretamente no espírito pelo Criador, ao ponto de instituir o famoso cogito, ergo sum[24], é também a opção de Blaise Pascal, francês de Clermont Ferrand, que o precedeu no século XVI, bem como a de Baruck Espinosa, um expoente panteísta, de origem portuguesa, nascido em Roterdão, a do otimista e matemático Gottfried Willem Leibniz, de Lepzig, o inventor do sistema binário que se ia tornar na base da informática, e, já pelo século XVIII adentro, a de George Berckeley, um irlandês de Kilkenny, e a de David Hume, um escocês de Edimburgo.  Todos se reuniram na Plataforma Cogito da Sofinésia.

Mas foi o iluminismo que corporizou a antítese do longo período escolástico, ao eleger a razão como norma e autoridade para compreender o mundo, relegando para segundo plano a fé em dogmas religiosos, e considerando mesmo que a religião deve limitar-se ao foro íntimo de cada indivíduo. Os primeiros iluministas foram  Charles-Louis de Montesquieu, de La Brède, na Aquitânia Francesa, e o parisiense François-Marie Voltaire, se passarmos adiante o empirista inglês John Locke, de Wrington, para quem o conhecimento não é conatural, mas nasce das sensações, seguindo-se um importante lote de filósofos, desde o suíço Jean Jacques Rousseau aos enciclopedistas franceses Diderot, de Langre, e Dalembert, de Paris, entre outros, quase todos também franceses, levando a que em França e pelo mundo o século XVIII passasse a ser designado de século das luzes, expressão que traduzia mudanças notáveis em várias vertentes do funcionamento da sociedade, desde logo o da política, em que o poder absoluto era desconsiderado, aparecendo pela primeira vez a conceção tripartida do poder (executivo, legislativo e judiciário), nascido do voto popular. Rousseau sistematizou esta inovação revolucionária na estruturação do poder político em uma obra que ficou para a História como o alicerce das que foram designadas democracias ocidentais: o Contrato Social. Na vertente económica nascia o liberalismo do laissez faire, laissez passer, que advogava a produção e a distribuição livres de taxas ou de outras barreiras, um modelo que passou a dominar o comércio internacional a partir daí. Todos se reuniram na Plataforma Lumen, que inclui um condomínio reservado aos teóricos do liberalismo, o Via Verde.

 Convém destacar aqui Immanuel Kant, um grande filósofo prussiano de Kalininegrado, que escreveu, entre outras obras de grande profundidade, uma tríade complexa, cujo conteúdo foi catalogado de criticismo subjetivista: (i)A Crítica da Razão Pura, na qual aborda a génese e a estruturação do conhecimento; (ii)A Crítica da Razão Prática, em que analisa a moralidade, a ética; e (iii)A Crítica da Faculdade do Juízo, que deteta  no espírito humano uma espécie de memória ram, que estabeleceria a conexão entre os nossos juízos morais e os empíricos, utilizando uma interface estética para analisar o belo e o sublime, e uma interface teleológica[25], para emprestar uma finalidade útil a cada objeto criado e percebido. Estudado e seguido por outros filósofos, como Georg Wilhelm Friederich Hegel, de Estugarda, que dá mais um passo ao afirmar a supremacia da História sobre todo o tipo de elucubrações teóricas (“contra factos não há argumentos”), criando mais uma chancela, a do idealismo, há nas reflexões de Kant um misto de tentativa de síntese entre o empirismo e o racionalismo, mas também a persistência de fortes dúvidas sobre a natureza humana e sobre o funcionamento das suas faculdades, bem patentes no facto de estar a escrever, quando morreu, em fevereiro de 1804, aos 79 anos, uma quarta “Crítica”, em que prosseguia no esforço de compreensão da complexidade do pensamento humano. Afinal, a confissão de impotência dos esforços da pesquisa para atingir fins últimos, tão natural nos seres humanos de eleição… Na Sofinésia, ocupam a Plataforma Télos.

Arthur Schopenauer, de Danzigue, prussiano como Kant, traz-nos, no século XIX, o voluntarismo, sublinhando a capacidade humana para combater as paixões, com vontade e ascese, ao passo que Soren Abyie Kierkegaard, de Copenhaga, aponta para o existencialismo, uma corrente palmilhada também por Martin Heidegger, de Friburg; por Gabriel Honoré Marcel, parisiense; por Jean Paul Sartre, outro parisiense e grande expoente desta corrente, que coloca o foco na pessoa concreta e nas suas reações individuais; por Albert Camus, um franco-argelino cuja obra literária foi definida como absurdismo, sendo certo que foi um resistente anti-fascista notável; e Friederich Nietzsche, outro prussiano, de Rocken, na República de Weimar, que corta cerce com toda a ideia de transcendência, ‘anunciando’ a morte de Deus; é tido como um pós-existencialista e pós estruturalista. Encontram-se todos estes pensadores em uma das plataformas mais emotivas da Sofinésia: a Krísis.

John Broadus Watson, de Traveler Rest, Carolina do Sul, foi o teórico do comportamentalismo, uma teoria que interpreta, na transição do século XIX para o século XX, os comportamentos de animais, estendendo depois a investigação aos humanos, atuando com estímulos, que produzem reações, sem recurso a introspeção.

Uma outra teoria que dispensa a introspeção é a do estruturalismo, despoletada por Ferdinand de Saussurre, de Genebra, que entende existir por detrás dos fenómenos uma estrutura, espécie de trama urdida por sínolos antónimos, que os explica, de modo determinista, quer no âmbito da psicologia, quer no da sociologia, quer no da linguística. Jackie Élie Derrida, um franco-argelino de El Biar, aplica depois estas ideias à literatura, e Jean William Fritz Piaget, um suíço de Genebra, à psicologia. Continuam as suas buscas na Plataforma Behaviour.

Ainda no século XIX campeia o materialismo, num regresso em força às teses atomistas dos cireneus do século IV a.C., protagonizado agora pelas teses de Ludwig Andreas von Feuerback, de Landshut, Baviera; por Karl Heinrich Marx, mais um prussiano, de Trevis, na Renânia; e por Freiderich Engels, também prussiano, de Barmen, Renânia, com efeitos práticos transformadores, por vezes devastadores, na Rússia com Vladimir Ylyich Ulianov (Lenine), de Simbirsk, nas margens do Volga, e na China com Mao Tse Tung, de Shaoshan, Shiangtan, despoletando ondas de choque que perduram no tempo e varrem ainda o espaço global, particularmente nos continentes mais pobres, África e América do Sul. Na mesma onda se inserem os cultores do positivismo, de que Auguste Comte, de Montpelier, é o expoente, e que procura classificar a filosofia em três idades: a teológica, que busca explicações dos fenómenos naturais numa transcendência divina; tendo-se seguido uma segunda etapa que procura explicar tudo ainda por fatores de natureza transcendente; e, finalmente, a física, que confia à ciência a missão de tudo analisar, tudo explicar e tudo resolver.

Ainda no século XIX, o grande Charles Darwin, de Shrewsbury, Reino Unido, deu um impulso decisivo à tese evolucionista, já avançada por Kierkgaard e seguida por um eminente jesuíta, Pierre Marie Joseph Teilhard de Chardin, de Sarcenat, Vale do Ródano, que por sua vez foi influenciado pelo espiritualismo de Henri Bergson, de Paris, que valorizava a biologia, a psicologia e a sociologia como caminho de investigação da evolução humana. As teses evolucionistas foram, depois da secessão reformista de Lutero, as que maiores convulsões originaram na interpretação dos livros sagrados dos cristãos, pondo em causa pilares centrais da doutrinação tradicional, como a tese do criacionismo ou as construções à volta do pecado original. Prosseguem nas suas pesquisas, irmanados nas plataformas gémeas Cell e Atom.

E foram-se sucedendo, pelo século XX fora, novas e sucessivas teorias filosóficas, como foi a do pragmatismo, protagonizada por William James, de New York, para quem os fins justificam os meios, ou a do neorrealismo de Bertrand Russel, de Trellek, País de Gales, conotado como liberal, pacifista e socialista, numa demonstração de quanto o século XX foi uma encruzilhada de caminhos à procura de uma mundivisão definitiva do homem/mulher, do seu entorno e das causas e fins últimos da sua existência, individual e coletiva.

Parecendo que nada mais de verdadeiramente original ficava para ser descoberto em teorias de pensamento, sucederam-se ainda assim as correntes neo: neoidealismo, com Francis Herbert Bradley, inglês de Clapham; neopositivismo, com Claude Levy-Strauss, de Bruxelas ou o vienense Ludwig Joseph Johann Wittgenstein; neorrealismo empirista-experimentalista, com Bertrand Russel, do País de Gales… E vários outros. A Plataforma Neo é uma das mais populosas e ativas na Sofinésia, o Limbo da Esperança, uma reserva de sapiência de que se podem esperar revelações capazes de resolver as equações mais complexas que sobraram da procura incansável de modelos de pensamento e de vida levadas a cabo pelas legiões de ínclitos ativistas do pensamento que ousaram empreender  uma longa marcha por carreiros escarpados, com o objetivo de decifrarem os labirintos em que a filosofia se vai desdobrando, em demanda da felicidade almejada em paraísos prenhes de mistérios que,  à medida em que vão sendo desvendados, embalam os nossos sonhos e aspirações de bem-aventurança plena.

A última plataforma em data a ser ocupada na Sofinésia está a acolher uma estirpe nova de pensadores, emparelhados a máquinas de aceleração do pensamento e do raciocínio, deixando transparecer a ideia de que se terá chegado a um patamar de convivência cooperativa entre humanos e seres pensantes por eles criados ou imaginados, capazes de interagirem através de robôs e avatares a um ritmo e com uma intensidade ainda há pouco impensáveis, mesmo pelas mentes mais criativas, como foram Júlio Verne, Orwel, Adams Huksley, Ursula Le Guin, Isaac Asimov, William Gibson, Arthur Clarke, H. G. Wells, Margareth Atwood ou Philip Dick. Já não se trata de fantasia ou ficção, estão criadas ligações sem o condicionamento de conexões físicas ou fisiológicas, o hardware transforma-se rapidamente em soft, desde que foram criados microprocessadores e sensores capazes de extrair, desencriptar e retransmitir sons, luz e formas em circulação no espaço sideral, a que se seguiu a assim chamada Inteligência Artificial Generativa, que se tornou capaz de percorrer neurónios quase virtuais e ler o pensamento de pessoas, animais e máquinas, e com isso prevenir decisões e acontecimentos, parecendo poder vir a isolá-los do poder do decisor, no termo de uma inversão do processo protocolar de raciocínio e de cálculo…

Dir-se-ia que nas encruzilhadas das laboriosas pesquisas de séculos de filosofia a transformar questionamentos e hipóteses em ciência, esta, de conluio com a tecnologia, acabou por tomar o freio nos dentes e parece apostada em demonstrar que pouco ou nada deve permanecer em definitivo no desconhecimento, numa atmosfera de obscura transcendência, concluindo por fim que o “conhece-te a ti mesmo” sentenciado pelo mesmo Sócrates que considerava nada saber, e inscrito no pórtico do Templo de Apolo em Delfos, encostou a humanidade vindoura, em especial a comunidade mais votada à pesquisa, à responsabilidade de tomar, por seu turno, as rédeas da História, e que o “só sei que nada sei” socrático veio desembocar em um “é minha responsabilidade e meu dever consolidar o saber que sei”, aprofundando a introspeção e estendendo-o à compreensão do mundo exterior, e confiar na missão comunitária da humanidade no seu conjunto, em co-working, de conquistar o domínio da Natureza, respeitando-a e preservando-a.

O fides quaerens intellectum, a que a Escolástica contrapôs o intellectum quaerens fidem parece ter desaguado definitivamente em um homo quaerens hominem, afinal retomando o γνῶθι σεαυτόν do Templo de Apolo, o Homem fulcral que o cínico Diógenes procurava em Atenas com uma candeia acesa em pleno dia… Por mais voltas que a pesquisa dê, à procura de explicações miríficas ao desenrolar da História, balanceando-se entre espírito e corpo, entre razão e emoção, entre matéria e forma, entre transcendência e imanência, entre virtude e vício, entre vontade e destino, voltamos a uma constatação sempre em pé, a saber, que a solução para os desafios que nos são postos em contínuo está a cargo dos humanos, que, chamados à vida, recebem como missão e condição de sucesso enfrentá-los e procurar-lhes a solução mais adequada, individual e coletivamente. 

Na verdade, a Filosofia, com as interrogações que vai suscitando ao longo do tempo, nas comunidades humanas em que prospera e faz caminho, vai diversificando, aprofundando e enriquecendo o conhecimento, ao mesmo tempo que a Ciência lhe devolve em dobro novos alfobres de dúvidas e hipóteses a esclarecer, numa troca virtuosa de ganhos mútuos de realidade aumentada em contínuo, potenciada pela descoberta de novas ferramentas, cada vez mais poderosas, capazes de transformar dúvida em certeza, ambição em conquista, agressividade em generosidade, carência em riqueza, angústia em felicidade... Até que resplandeça a LUZ nos Céus… Todos os Céus! O mesmo Céu que nos abriga a todos!...

No termo desta viagem-relâmpago pela constelação de pensadores reportados pelos escribas e analistas, uma pergunta, inquietante, se impõe: -- Porque é que não há uma única mulher, neste extenso rol de pensadores? Um simples exercício de perceção e de memória nos diz que entre as mulheres que conhecemos, inúmeras são as que ombreiam com os seus pares, acrescendo a importância da complementaridade que trazem à perspetiva do olhar masculino, faltando, por isso, perceber por que razões as suas visões não são lavradas e conservadas em registos de memória… Tanto mais que na Sofinésia há uma imensa Plataforma, o Gineceu, de portas abertas à beleza, à amabilidade, à fertilidade, ao amor, mas também à


[1] Módulos nucleares da formação da crosta terrestre

[2] A Sofinésia será, alegadamente, uma entidade híbrida, uma síntese inteligente e autossustentada dos elementos vitais (Terra, Fogo, Ar e Água), gerada por Neptuno, o deus romano dos mares, com Clito, a mãe de Hércules, tendo este sido postado numa posição estratégica, entre o Gonduana e a Laurásia, para velar pela sua irmã submersa. Uma espécie de contraponto dos Campos Elísios do submundo da mitologia greco-romana, desta vez não para julgar, premiando ou castigando atos da vida terrena, mas para acolher os humanos “que por pensamentos valerosos se vão da lei da morte libertando”, parafraseando um célebre escritor ainda vindouro….

[3] Epíteto da Sofinésia,

[4] Universo, entendido como Sistema, complexo e ordenado.

[5] Razão

[6] Do grego maieutikê, que reporta à arte da obstetrícia, um processo bem plasmado na expressão que se vulgarizou “da discussão nasce a luz”.

[7] O termo grego Arkê significa “princípio”-“origem”-começo”. Desde tempos imemoriais que a identificação da força motriz geradora da vida se apresentou ao pensamento humano como o mais complexo desafio, desencadeando formulações sucessivas de questionamentos sem uma resposta que saciasse a sede de compreensão dos filósofos ao longo do tempo. A água (Tales de Mileto); o éter - na aceção de Infinito – (Anaximandro de Mileto); o ar (Anaxímenes de Mileto); a terra (Xenófanes de Cólofon); o Fogo (Heráclito de Éfeso); o número (Pitágoras de Samos); os 4 Elementos – terra, ar, fogo e água, em conjunto – (Empédocles de Agrigento); homeomerias – partículas invisíveis – (Anaxágoras de Clazormena); ou átomos (Demócrito de Abdera), foram as primeiras hipóteses aventadas pelos filósofos das Escolas Gregas da Antiguidade Clássica, ficando a ideia, nem sempre expressa, da atribuição desse papel de causa última das coisas e da vida a um Deus ou deuses, eventualmente transcendentes.

[8] Mundo superior, uma espécie de matriz perfeita e imutável, que guarda os protótipos originais (arquétipos) de tudo o que existe, em modo de espelho, no mundo visível.

[9] Vocábulo introduzido no discurso filosófico no século XIX para expressar que tudo o que existe é constituído de matéria (hyle) e forma (morfê), um conceito avançado pelos filósofos da Grécia Antiga, estabelecido por Aristóteles e desenvolvido na Idade Média pelos filósofos Escolásticos.

[10] De sún, prefixo grego significando união. Aristóteles firmou este conceito em contraponto com o seu Mestre Platão, que considerava os seres reais separados dos que percebemos, num mundo à parte.

[11] O Silogismo é um raciocínio, que pode ser dedutivo ou indutivo, desenvolvido em duas premissas, uma maior e outra menor, que geram uma conclusão, cujo acerto deve ser testado com um conjunto de regras, evitando conclusões viciadas, como as dos sofismas ou das falácias, ou com os princípios de identidade, de não contradição e do terceiro excluído.

[12] De hédon, prazer.

[13] De Eklektikós, em grego, que significa ‘melhor escolha’.

[14] Sunkretismós, termo que traduziu na origem a União das Cidades-Estado da Ilha de Creta.

[15] Sendo contemporâneo de Cristo, não consta que tenha chegado a inteira-se das suas doutrinas, transmitidas oralmente a um grupo restrito de seguidores, só mais tarde vertida em escritos, pelos Evangelistas e por Paulo de Tarso, a partir de 50 d.C.

[16] Outrora politeísta, o povo de Israel tornou-se monoteísta depois do exílio babilónico, adotando o nome de Yavé para invocar o Deus único, criador e omnipotente, mais tarde substituído, por respeito ao sagrado, pelo pseudónimo Adonai.

[17] Acusado em 41de ter cometido adultério com uma sobrinha do Imperador Décio, este Imperador exilou-o para esta ilha do Mediterrânio. Voltou após alguns anos, protegido por Agripina, mãe de Nero.

[18] O conceito de Ubuntu traduz-se na máxima “eu sou porque nós somos”.

[19] As quatro categorias de ntu: humanos; coisas não inteligentes; as coordenadas espaço-tempo; e os modos e circunstâncias que afetam a existência (uma faceta de pensamento marcadamente existencialista).

[20] Agostinho nasceu na Numídia, em Tagaste, atual Souk Haras, na Argélia, e foi bispo de Hipona, também na Numídia, atual Annaba, igualmente na Argélia.

[21] No atual Uzbequistão

[22] Também o topónimo da Plataforma dos renascentistas na Sofinésia.

[23] A fé questiona a razão; uma asserção que, na doutrina escolástica, apela, em complemento, a sua inversa: a razão questiona a fé

[24] Penso, logo existo.

[25] Do grego téleos, finalidade, objetivo,+logos; a não confundir com teológica.

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